sábado, 30 de julho de 2022

DO MEU CORAÇÃO PARA O SEU - (Américo J C Peixoto)

 
 

PERFIL DE UMA VERDADEIRA FACILITADORA DE APRENDIZAGENS

 

Querida mestra,

Como vai?

Dirijo-me a você, carinhosamente, talvez sem lhe conhecer. É que temos um amor em comum, quando olhamos na mesma direção... trabalhamos com crianças.

Esquecidos da profissão que os diplomas nos conferem, ou das atribuições que os contratos nos impõem, conversaremos sobre a missão de cada um de nós, já que con+versar é falar de nossos sentimentos e, missão vem do coração.

De minha parte, digo-lhe: a missão brotou quando descobri que me juntando às crianças de fora', eu poderia resgatar a minha 'criança de dentro'... Fui órfão de pais vivos; embora os meus tenham morrido octogenários, jamais morei com eles. Minha juventude, também se sufocou nos rigores de um internato religioso.

E, com você como terá sido?!

Fico imaginando... Quem sabe, terá caído nesse 'mundo das crianças' só para não desperdiçar a primeira chance que o mercado competidor lhe proporcionou?

Ou, ao contrário, quando de sua infância feliz, por acaso, já não contava histórias para suas bonequinhas, em escolas imaginárias? Ou chegou a dar aulas para as galinhas amontoadas no quintal? Seu cachorrinho, já seduzido, sentava com as orelhinhas em pé para lhe escutar as explicações?

Naquela época você nem havia escutado a palavra caris-ma, mas, ele já habitava em você... e agora?

Gostaria com este texto lhe estimular a fazer o melhor com o que sua infância terá lhe dado ou negado. Sartre diz-nos que é isto que importa.

Disponibilizo, em seguida, algumas pérolas que recolhi ao longo de três décadas dedicadas à educação continuada, enquanto realizava um de meus sonhos: ser fio de náilon, invisível, mas que une contas, formando um colar para fazer acontecer, sem deixar nenhuma sozinha se perder.

Agradeço a acolhida que deu a esses meus toques, esperando, em breve, receber seus retoques.

Um abraço amigo.

 


A seguir, algumas características sugeridas como integrantes do perfil de uma verdadeira facilitadora de descobertas e aprendizagens.

 

PAIXÃO

pelas crianças é a primeira garantia de êxito para quem desejar empreender algo em favor delas. Pai (no chão), quer dizer jogar no chão toda a racionalidade e seguir o coração. Os apaixonados estarão sempre desejando interagir com seus amores. Se alguém, ao lhe falar de crianças perceber que você tem brilho nos olhos, cuide-se... ele saberá que você é apaixonada por elas.

 

CLAREZA DE VALORES,

é fundamental à sua decisão de trabalhar com crianças. No mercado prevalente das cifras, seu contracheque dificilmente fará sucesso. Mas, na escala de valores de sua escolha você descobrirá que aquilo que significar para as crianças, valerá mais do que tudo que lhes possa dar.

 

EXPRESSÃO DO AFETO

Torna-se indispensável para algumas pessoas, aprender a expressar fisicamente o afeto que nutrem pelas crianças. O poder do toque é inestimável. Um simples abraço ou um ligeiro produzem mais resultado que um discurso ensaiado. Lembre-se: sensibilizou, é igual a faturou; muito explicou, complicou.

 

PERCEPÇÃO,

quer dizer: sacar, cair a ficha ou o chip. Prefira a lucidez à inteligência. Um gênio míope renderá poucos dividendos... Ao ser interrogada por uma criança, sintonize-se em AM, ouvindo apenas as palavras ditas. Mas, não esqueça de fazê-lo também em FM, que lhe revelará, na verdade, o que ela deseja. Quando lhe perguntar: "você vai sair agora"? O que ela de fato, quer saber, é se demorará a livrar-se de você, para fazer o que quiser...

 

COMUNICAÇÃO

Chorar é a elementar forma de comunicação da criança. É a expressão máxima de dor ou de amor. Depois aprenderá a ouvir e falar, nesta ordem. Logo, para ensiná-la a ouvir é indispensável que se fale com ela adequadamente. Para tanto, considere que seus cinco sentidos funcionam conjuntamente. Para sermos bem ouvidos e ela aprender a falar, teremos que nos aproximar dela e falar-lhe 'olhos nos olhos', além de tocá-la. O motor da inteligência é o afeto.

 

CRESCER SEMPRE,

isto é, não parar de aprender, que por sua vez significa não parar de mudar. Diplomas são como os perecíveis, tornam-se vencidos. Então, é necessário manter-se atualizada. Não pare de estudar. Mas, se isto não for possível, leia livros e revistas e ao fazê-lo, saboreie mais as entrelinhas do que as próprias linhas. Todavia, se isto também for inviável, troque ideias com colegas mais experientes. Einstein adverte que há três grupos de pessoas: as que falam de obviedades, outras que falam dos outros e, finalmente, as que falam de ideias. Saiba escolher.

 

"CRIANÇA DEVE SER SACADA, COMPREENDIDA E CORRESPONDIDA"

 

A CRIANÇA E O AMOR

 Durante uma aula a professora pediu para que as crianças buscassem no pátio da escola algo que pudesse representar o amor. Após o recreio, as crianças apresentaram seus símbolos. A primeiro apresentou uma flor e disse: - Professora, eu trouxe uma flor. Sinta seu cheiro. Como é perfumada! Assim é o amor! A seguinte trouxe uma borboleta e disse: - Professora, aqui está uma borboleta. Veja que lindo o colorido de suas asas. Vou colocá-la na minha coleção. A terceira, tinha um filhote de passarinho em suas mãos. E disse: - Olhe como é pequeno e delicado. Achei ele caído no pátio da escola.

Enquanto as crianças apresentavam seus símbolos, a professora notou uma, bem quietinha no fundo da sala, sem nada em suas mãos, e lhe perguntou: - O que você trouxe? - Professora, eu vi a flor e quis pegá-la, mas deixei lá para que continuasse a perfumar o lugar. Vi a borboleta, mas não tive coragem de lhe tirar a liberdade. Vi o filhote de passarinho, pensei em pegá-lo, mas vi o olhar triste da mãe e lhe devolvi o filhotinho. Então, posso lhe dizer que trago o perfume da flor, a liberdade da borboleta e a gratidão da mãe do passarinho.

A professora emocionada agradeceu e disse que o amor só poderia ser trazido verdadeiramente de dentro do coração.


Fonte -  In: Toques & retoques: inflexões em psicopedagogia / Américo J C Peixoto. Editora Paka-Tatu, 2021. Belém-PA. Pp 75-79.

Imagens da internet.

Sobre o Autor - Américo José de Castro Peixoto, nasceu em Manaus-AM, em 1938, casado, estudou Filosofia, Pedagogia e Psicopedagogia.  É Bacharel em "Ciência da Educação" e pós-graduado em "Educação Inovadora, com Habilitação em Ensino Superior". Exerceu Magistério Superior e diversas funções de direção em órgãos públicos e privados. Há trinta anos, fundou o Núcleo de Estimulação da Criança-NECTAR, em Brasília, passando a dedicar-se, com exclusividade, ao atendimento psicopedagógico. Entre suas publicações impressas destacam-se: "Declaração de Compromisso do Professor para Ingressar no III Milênio" e "Caderneta de Poupança Emocional". Atualmente reside em Belém.  e-mail: ajpeixoto@uol.com.br  

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Amizade (Rubem Alves)

Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão...


O encontro acontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira. A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre.

Pela primeira vez, estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro.

“Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu coração cantava ‘Tenho um amigo, tenho um amigo!’ Nada via. Nada ouvia. Não pensava em mais nada. Estava morto de sono e adormeceu apenas deitou-se. Mas durante a noite foi acordado duas ou três vezes, como que por uma ideia fixa. Repetia para si mesmo: ‘Tenho um amigo’, e tornava a adormecer.”

Jean-Christophe compreendera a essência da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem. Se o silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se põe a procurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou tramar. Até que tudo isso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, terminado o alegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio - que são insuportáveis. Nesse momento, o outro se transforma num incômodo que entulha o espaço e cuja despedida se espera com ansiedade.

Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria independentemente do que se faça ou diga. A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas.


Uma estória oriental conta
de uma árvore solitária que se via no alto da montanha. Não tinha sido sempre assim. Em tempos passados, a montanha estivera coberta de árvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela árvore era torta, não podia ser transformada em tábuas. Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. Depois vieram os caçadores de essências em busca de madeiras perfumadas. Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam.

Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo sabemos que não estamos sós. E alegria maior não pode existir.


Fonte - https://institutorubemalves.org.br/ Originalmente publicado no jornal Correio Popular, 1991/1992.
Grifo feitos por mim.

Sobre o Autor -  Rubem Alves (1933-2014) foi teólogo, pedagogo, poeta e filósofo brasileiro.


sábado, 25 de junho de 2022

O que se entende por Respeito?

 

O que é Respeito?

Respeito é um dos valores humanos que fundamentam a vida em sociedade. Seja em relações interpessoais ou em vista de normas, regras ou de um poder instituído.

O respeito pode se dar em diferentes níveis de relações de poder e hierarquia. Em relações de inferioridade, igualdade e superioridade hierárquica ou de poder.

Em relações em que a pessoa respeita algo que é maior ou mais poderoso. Nesse sentido, o respeito está diretamente ligado à obediência. Por exemplo, no respeito às leis, às instituições, às regras de um jogo, à autoridade, a Deus ou à doutrina de uma religião.

Em relações de igualdade, onde ambas as partes possuem o mesmo poder ou não há hierarquia. Nesses casos, o respeito está relacionado com a lealdade, a honestidade e a justiça. Por exemplo, no respeito entre pessoas (respeito ao próximo), em relações afetivas ou de trabalho.

Já nas relações em que há uma superioridade hierárquica ou de poder, o respeito está ligado à tolerância, à consideração ou não discriminação. Por exemplo, o respeito às minorias, respeito às diferenças, às crianças, aos idosos, à natureza etc.

Nesses casos, a pessoa que respeita busca não impor a sua vontade de forma autoritária, ainda que possua poder para isso. O sentimento de respeito pode ser movido por empatia, apreço ou deferência.

Segundo a etimologia, "respeito" é oriundo do latim respectus que significa "olhar outra vez". Assim, algo que merece um segundo olhar é algo digno de respeito.

Por esse motivo, respeito também pode ser uma forma de veneração, de prestar culto ou fazer uma homenagem a alguém, como indica a expressão "apresentar os seus respeitos". Ter respeito por alguém também pode implicar um comportamento de submissão e temor.

As religiões abordam o tema do respeito a Deus, como forma de obediência e submissão aos princípios religiosos, e também o respeito ao próximo.

O respeito mútuo representa uma das formas mais básicas e essenciais para o convívio social e é um dos princípios fundamentais da maioria das religiões.

O respeito é um dos valores mais importantes do ser humano e tem grande importância na interação social. O respeito impede que uma pessoa tenha atitudes reprováveis, autoritárias ou injustas em relação a outra.

Respeitar não significa concordar plenamente com outra pessoa, mas significa não discriminar, ofender ou impedir que uma pessoa realize suas próprias escolhas.

 

Fonte - https://www.significados.com.br/respeito/

terça-feira, 7 de junho de 2022

Algumas dicas para a administração do tempo. (Renato Fridschtein)

 

O tempo é o recurso mais escasso e o mais valioso que existe. Agora já passou e não tem dinheiro no mundo que possa comprar este minuto de volta. Aprender a administrar o tempo é uma das ações mais importantes que qualquer pessoa pode fazer para melhorar suas chances de sucesso nos negócios e na vida.

Há diversos livros e cursos no mercado e este artigo é apenas uma introdução que, longe de esgotar o assunto, vai te dar os principais recursos para atingir seus objetivos.

Planejamento do tempo

Como sempre, a importância do planejamento não pode ser descartada. Planejar o tempo significa saber o que se quer fazer e ordenar as ações para a realização da maior quantidade de atividades no menor prazo para se atingir seus objetivos.

Agenda diária

Para planejar bem o seu tempo, desenvolva o hábito de manter uma agenda diária, faça assim:

No começo do dia, escreva uma lista de tudo o que quer realizar. Faça desta sua primeira atividade, antes de qualquer coisa. Tá bom, depois do café da manhã e de escovar os dentes.

No final do dia, veja tudo o que conseguiu fazer e transfira para o dia seguinte o que não foi feito.

Prioridades

É importante saber dar prioridade às ações. Para mim, há alguns fatores que influenciam minhas prioridades:

Prazo. A primeira coisa que levo em conta é a data de entrega de uma tarefa. Uso um truque que é programar cada coisa para dois dias antes da data final. Assim eu tenho tempo de rever as coisas antes da entrega. Nem sempre dá pra fazer isto, porque surgem imprevistos e coisas de ultima hora e até aquelas coisas “pra ontem”. Nestes casos eu observo:

Resultados. Procuro dar prioridade àquelas atividades que trarão o maior resultado. A “Regra de Pareto” diz que 20% do que fazemos traz 80% dos resultados, enquanto os outros 80% de atividades produzem 20% de resultados.

Procuro identificar os 20% melhores e delegar o restante. Pense nisto: às vezes vale mais a pena contratar alguém para resolver o que não traz tanto benefício, mas que igualmente precisa ser feito. Ex: ir ao banco, ao correio etc. Pode sair até mais barato.

Facilidade. O terceiro fator de priorização de atividades é a facilidade (ou dificuldade) que determinada ação representa. Eu tento realizar tudo o que é mais rápido e fácil antes, assim no final do dia terei realizado um monte de coisas.

O perigo é ir deixando coisas mais complexas para depois e acabar esquecendo, por isso que este é o terceiro fator e não o primeiro. Os prazos e os resultados têm um peso maior que a facilidade de execução.

Às vezes, quando percebo que alguma coisa vai ser complicada, vou fazendo um pouco a cada dia ou por outro lado, vou “quebrando” um problema difícil em problemas menores e mais fáceis de resolver. Cada pequena parte resolvida é uma parte do todo, assim, quase sem querer grandes obstáculos são ultrapassados.

Conjugando estes três ângulos você também pode estabelecer suas prioridades.

Lista Mestra

Uma lista mestra é a sua lista de afazeres. É a partir dela que você monta sua agenda diária. Veja como se faz – pegue uma folha de papel pautada (ou abra uma planilha) e faça as seguintes colunas:

Atividade, Prazo, Resultado, Facilidade, Prioridade, Completado.

O significado de cada coluna:

Atividade. O que deve ser feito;

Prazo. A data de entrega. Se não há data fixa defina uma, mas não deixe cair muito longe;

Resultados. Tente dar um nível de resultado esperado;

Facilidade. Dê um nível de facilidade. Pode ser fácil, médio, difícil ou 1,2,3,4,5. Enfim, você é que sabe;

Prioridade. Com base nas outras colunas você pode definir a prioridade de cada ação;

Completado. Nesta coluna você coloca uma marca em cada atividade concluída. Ao terminar uma ação você também pode riscar a linha, se preferir.

Quando uma nova atividade surgir, você deve colocar ela na lista mestra e (tentar) completar as outras colunas. Lembre–se. No começo do dia você examina sua agenda e atualiza sua listra mestra. No final do dia, repete a ação e planeja o dia seguinte.

Juntando tudo

Monte sua lista mestra e use–a para manejar a agenda diária. Tente por alguns dias e se você fizer tudo direitinho, vai acabar sendo conquistado por esta forma de trabalhar. Em pouco tempo, verá como fica fácil trabalhar assim e como você vai ficar orgulhoso com os resultados que vai alcançar.

Porque vai estar se colocando desafios e ultrapassando cada um deles, controlando seu tempo e sua vida. Comece hoje mesmo a planejar seu tempo e realize mais e melhor. [Webinsider]

 

Fonte: https://webinsider.com.br/algumas-dicas-para-a-administracao-do-tempo/ . Publicado em 30, jan/2003. Autor - Renato Fridschtein

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quinta-feira, 26 de maio de 2022

LER POUCO (Rubem Alves)

 

Jovem, eu sonhava ter uma grande biblioteca. E fui assim, pela vida, comprando os livros que podia. Tive de desenvolver métodos para controlar minha voracidade, porque o dinheiro e o tempo eram poucos. Entrava na livraria, separava todos os livros que desejava comprar e, ao me aproximar do caixa, colocava-os sobre o balcão e me perguntava diante de cada um: “Tenho necessidade imediata desse livro? Tenho outros, em casa, ainda não lidos? Posso esperar?” E assim ia pegando cada um deles e devolvendo às prateleiras. A despeito desse método de controle, cheguei a ter uma biblioteca significativa, mais do que suficiente para as minhas necessidades.

Notei, à medida que envelhecia, uma mudança nas minhas preferências: passei a ter mais prazer na seção dos livros de arte nas livrarias. Os livros de ciência a gente lê uma vez, fica sabendo e não tem necessidade de ler de novo. Com os livros de arte acontece diferente. Cada vez que os abrimos é um encantamento novo! Creio que meu amor pelos livros de arte tem a ver com experiências infantis. Talvez que os psicanalistas interpretem esse amor como uma manifestação neurótica de regressão. Não me incomodo. Pois, em oposição à psicanálise que considera a infância como um período de imaturidade que deve ser ultrapassado para que nos tornemos adultos, eu, inspirado por teólogos e poetas, considero a maturidade como uma doença a ser curada. 

Bem reza a Adélia Prado: “Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande...” E não pense que isso é maluquice de poeta. Peter Berger, um sociólogo inteligente e com senso de humor, definiu maturidade, essa qualidade tão valorizada, como “um estado de mente que se acomodou, ajustou-se ao status quo e abandonou os sonhos selvagens de aventura e realização...”. Menino de cinco anos, eu passava horas vendo um livro da minha mãe, cheio de figuras. Lembro-me: uma delas era um prédio de dez andares com a seguinte explicação: “Nos Estados Unidos há casas de dez andares”. E havia a figura de um caçador de jacarés, e de crianças esquimós saudando a chegada do sol.

O fato é que comecei a mudar os meus gostos e chegou um momento em que, olhando para aquelas estantes cheias de livros, eu me perguntei: “Já sou velho. Terei tempo de ler todos esses livros? Eu quero ler todos esses livros?” Não, nem tenho tempo nem quero. Então, por que guardá-los? Resolvi dar os livros que eu não amava. Compreendi, então, que não se pode falar em amor pelos livros, em geral. Um homem que diz amar todas as mulheres na verdade não ama nenhuma. Nunca se apaixonará. O mesmo vale para os livros. Assim, fui aos meus livros com as perguntas: “Você me ama?” (Acha que estou louco? É Roland Barthes que declara que o texto tem de dar provas de que me deseja. Há muitos livros que dão provas de que me odeiam. Outros me ignoram totalmente, nada querem de mim...), “Vou querer ler você de novo?” Se as respostas eram negativas, o livro era separado para ser dado.

Essa coisa de “amor universal aos livros” fez-me lembrar um texto de Nietzsche sobre o filósofo Tales de Mileto, em que ele recorda que a palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, “eu saboreio”, sapiens, “o degustador”,sisyphos, “o homem de gosto mais apurado”; um apurado degustar e distinguir, um significativo discernimento, constitui, pois, [...] a arte peculiar do filósofo. [...] A ciência, sem essa seleção, sem esse refinamento de gosto, precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço; enquanto o pensar filosófico está sempre no rastro das coisas dignas de serem sabidas...

E depois, no Zaratustra, ele comenta com ironia: “Mastigar e digerir tudo – essa é uma maneira suína”.

O fato é que muitos estudantes são obrigados a ler à maneira suína, mastigando e engolindo o que não desejam. Depois, é claro, vomitam tudo... Como eu já passei dessa fase, posso me entregar ao prazer de ler os livros à maneira canina. Nenhum cachorro abocanha a comida. Primeiro ele cheira. Se o nariz não disser “sim”, ele não come. Faço o mesmo com os livros. Primeiro cheiro. O que procuro? O cheiro do escritor. Se não tem cheiro humano, não como. Nietzsche também cheirava primeiro. Dizia só amar os livros escritos com sangue.

Ler é um ritual antropofágico. Sabia disso Murilo Mendes quando escreveu: “No tempo em que eu não era antropófago, isto é, no tempo em que eu não devorava livros – e os livros não são homens, não contêm a substância, o próprio sangue do homem?” A antropofagia não se fazia por razões alimentares. Fazia-se por razões mágicas. Quem come a carne do sacrificado se apropria das virtudes que moravam no seu corpo. Como na eucaristia cristã, que é um ritual antropofágico: “Esse pão é a minha carne, esse vinho é o meu sangue...” Cada livro é um sacramento. Cada leitura é um ritual mágico. Quem lê um livro escrito com sangue corre o risco de ficar parecido com o escritor. Já aconteceu comigo...

 Fonte: http://www.blogdogaleno.com.br/texto_ler.php?id=213&page=13 

***Os grifos são meus.



Sobre o autor – Rubem Alves nasceu em 15/09/1933 - Boa Esperança/Minas Gerais. Faleceu em 19/07/2014 – Campinas/São Paulo. Teólogo, filósofo e psicanalista, autor de vários livros.  de 40 livros.





terça-feira, 10 de maio de 2022

Escuta reativa (Parte 2)


ESCUTA REATIVA: pessoas que ouvem para refutar, não para entender (cont)


Os 3 passos para desativar a escuta reativa

Conversar com uma pessoa que escuta de forma reativa é muitas vezes exaustivo. É provável que você tente diferentes caminhos / argumentos e cada um tropeça em uma parede de mal-entendido. Isso pode ser muito frustrante. Nesses casos, para que o diálogo progrida, você precisa desativar esse modo de escuta.

No entanto, você deve partir do fato de que toda comunicação contém certo grau de dispersão, pois o que você acha do que seu interlocutor entende é uma boa distância. É por isso que você deve garantir que sua mensagem chegue da forma mais clara possível.

1. Estabeleça um ponto de partida comum. Continuar apresentando argumentos, ad infinitum, não ajudará. Você precisa voltar no começo. E estabeleça um novo ponto de partida com o qual ambos concordam. Em um relacionamento, esse ponto de partida pode ser que vocês dois se amem. Em uma relação de emprego, o ponto de partida pode ser que ambos precisem resolver o problema ou finalizar o projeto.

Essa verdade compartilhada permitirá, por um lado, encurtar a distância psicológica que foi criada e, por outro lado, estabelecer um precedente de concordância que predisponha positivamente o diálogo, fazendo com que ambos olhem na mesma direção, embora cada um pareça diferente. E isso já é um grande passo em frente.

2. Baixe as defesas. Não há nada pior para entender do que se sentir atacado. Portanto, você deve garantir que seu interlocutor se sinta relativamente à vontade. Use um tom de voz suave e calmo. Não precisa se mexer. Deixe-o saber que você entende seus argumentos e que entende sua posição, que seu objetivo é chegar a um acordo com o qual ambos se sintam à vontade, não para impor seu ponto de vista.

Se você conseguir derrubar os muros que seu interlocutor havia erguido, pode não chegar a um acordo imediatamente, mas pelo menos é provável que seus argumentos caiam e faça com que ele mude de ideia mais tarde. Para fazer isso, em vez de “atacar” suas ideias ou sentimentos, o ideal é falar sobre como você se sente e como essa situação afeta você. Em vez de acusar, fale sobre você. Mostrar vulnerabilidade é geralmente a ferramenta mais poderosa para desativar a escuta reativa e ativar a escuta ativa.

3. Aproveite cada acordo, por menor que seja. À primeira vista, parece uma contradição, mas a única maneira de fazer com que uma pessoa entenda e aceite seus argumentos é entender e aceitar os dele. A escuta reativa expira com a escuta ativa. Se você ativar uma escuta reativa, só poderá mergulhar em um diálogo de surdos.

Ouça os argumentos de seu interlocutor, não com a intenção de refutá-los, mas de procurar pontos em comum, por menores que sejam, e usá-los como tijolos para criar um discurso comum. Incorporar suas ideias na deles, para avançar pouco a pouco. A compreensão não é alcançada saltando de desacordo para acordo, mas construindo passos baseados em ideias ou sentimentos comuns. Toda vez que você destaca esses pontos de contato, você quebra as barreiras entre o “eu” e o “você”, criando um espaço de comunicação compartilhado que facilita a compreensão.

Finalmente, se você perceber que, naquele momento, a compreensão é impossível, é melhor ajustar a conversa para outra hora. Não discuta com um tolo ou com uma pessoa que, naquele momento, ficou ofuscada demais para progredir no diálogo. Lembre-se de que às vezes é melhor preservar a paz interior do que estar certo.

 

Fonte -  Pensar Contemporâneo  postado em 

https://www.pensarcontemporaneo.com/escuta-reativa-pessoas-que-ouvem-para-refutar-nao-para-entender/?fbclid=IwAR0jKgqDf07rWv3Uz_2OmCZ4rED8sw5-pYkwo7-QWnQjU0LEfaKuygK3IcY

 



quinta-feira, 28 de abril de 2022

Escuta reativa (Parte1)

 


ESCUTA REATIVA: pessoas que ouvem para refutar, não para entender

Você já conversou com uma pessoa e, apesar de ter recorrido a um grande arsenal de argumentos, você teve a sensação de falar com uma parede? Mesmo que você tenha lutado para explicar suas razões e entender as suas, para chegar a um acordo, você provavelmente teve a sensação de que elas não o entendem – ou não querem entendê-lo.

Não é que os seus argumentos tenham sido transformados em rabiscos, é provável que o diálogo não progrida porque o canal de comunicação foi quebrado – ou nunca estabelecido – porque o seu interlocutor não pretendia realmente compreender, mas apenas refutar.

Escuta reativa: Primeiro eu, depois eu e depois eu de novo

Epicteto disse que “assim como há uma arte de boa fala, há uma arte de ouvir bem”. E todos nós podemos ouvir, mas poucos são capazes de escutar.

A escuta ativa é uma habilidade relativamente rara, porque envolve não apenas ouvir o que a outra pessoa está dizendo, mas prestar atenção aos sentimentos e emoções subjacentes. Para isso, é essencial sair de nossa posição egocêntrica e assumir uma postura empática, sendo capaz de nos colocar na pele do outro para compreender plenamente sua mensagem.

A escuta ativa também implica um interesse autêntico na pessoa e em sua mensagem. Isso não significa que concordamos com suas ideias, mas estamos interessados em entendê-las. É por isso que é sinônimo de respeito e vontade de dialogar.

Infelizmente, em uma sociedade cada vez mais narcisista, muitas pessoas não conseguem desenvolver uma escuta ativa. Em vez de ouvir seu interlocutor para entender suas ideias e sentimentos, eles apenas ouvem seus argumentos para refutá-los, como se fosse um duelo.

A escuta reativa, como eu chamo este tipo de comunicação, implica entrincheirar-se por trás dos próprios pontos de vista, e acaba se tornando um obstáculo ao diálogo. Implica reagir às ideias do interlocutor de um ponto de vista egocêntrico, para impor seus próprios critérios, sem a intenção de chegar a um acordo vantajoso para ambos.

A pessoa que coloca em prática uma escuta reativa limita-se a reagir a partir de suas emoções, crenças e ideias, sem levar em conta as do interlocutor. Desta forma, não é possível criar o espaço compartilhado necessário para que ocorra a compreensão, de modo que acaba instalando um diálogo surdo.

Como saber se uma pessoa iniciou uma escuta reativa?

1. A pessoa não leva em conta o que seu interlocutor diz. Se ouvir os seus argumentos, é apenas para refutá-los.

2. Ele não presta o devido interesse nas palavras de seu interlocutor, demonstrando uma quase total falta de empatia.

3. Só está interessado em transmitir a sua mensagem – a qualquer custo – fechando qualquer argumento contrário às suas ideias.

O que mascara a escuta reativa? 

Muitas pessoas praticam a escuta reativa porque querem afirmar seus argumentos – não importa como ou a que preço. Basicamente, elas não estão interessadas nas ideias ou motivos que você pode-lhes dar, porque seu objetivo principal é impor suas razões, de modo que sua visão prevaleça.

Essas pessoas não estão procurando por um diálogo, mas sim começam uma batalha em que querem vencer. Elas não assumem o diálogo como uma oportunidade para crescer, mas como um duelo. Portanto, é provável que percebam seus argumentos como uma ameaça, simplesmente porque elas não correspondem aos delas, então sentem que precisam se defender.

Isto implica que eles ignorarão qualquer vislumbre da verdade que possa encerrar sua mensagem e que possa ajudá-los a mudar de ideia, ampliar sua perspectiva ou enriquecer seu ponto de vista, porque estão apenas à procura de possíveis contradições, imprecisões ou hesitações para contra-atacar.

É claro que todos podemos praticar a escuta reativa de tempos em tempos, especialmente quando sentimos que estamos atacando nosso ego e nos tornamos defensivos, mas assumi-lo como um estilo comunicativo implica pouca autoconfiança.

Uma pessoa madura, assertiva e autoconfiante não sente a necessidade de impor seus argumentos, mas está aberta ao diálogo e receptiva a diferentes pontos de vista que podem enriquecer sua visão de mundo ou ajudá-lo a entender melhor quem está à sua frente... Portanto, no fundo, a escuta reativa é a expressão de um ego frágil ou de profunda insegurança pessoal.

Martin Luther King disse que “sua verdade aumentará quando você souber ouvir a verdade dos outros”. A pessoa que fecha as portas para as ideias dos outros acaba correndo o risco de ficar presa a uma visão cada vez mais limitada do mundo, da vida e de si mesma.

Fonte -  Pensar Contemporâneo  postado em 

https://www.pensarcontemporaneo.com/escuta-reativa-pessoas-que-ouvem-para-refutar-nao-para-entender/?fbclid=IwAR0jKgqDf07rWv3Uz_2OmCZ4rED8sw5-pYkwo7-QWnQjU0LEfaKuygK3IcY

sábado, 23 de abril de 2022

“O que a memória ama, fica eterno” (*frase de Adélia Prado)

 

Quando jovem, não entendia o choro dos adultos ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que não choravam por coisas visíveis. Choravam pela eternidade que vivia dentro deles e que eu era incapaz de compreender. O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocadas por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando cada momento. Jovens têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para eles, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a vida é impregnada de eternidade.

Com o tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, outros partem. Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas e amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão pertos, nossos entes queridos ainda vivem.

O que a memória ama, fica eterno. Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos e nos damos conta do que guardamos em nossos baús secretos. A memória é dada a segredos recheados daquilo que amamos, que deixou saudades e permaneceu além do tempo.

A capacidade de se emocionar vem daí, quando nossas memórias afloram de alguma maneira. Um dia você liga o rádio e neste toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música fez parte de você, foi o fundo musical de um amor, ou de uma fossa e mesmo que tenham se passado anos, alguma parte de você volta no tempo lembrando de uma pessoa, de um momento, de uma época…


Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos, já adultos ou até idosos, portam-se como adolescentes. Encontros de amigos são especiais por isso, resgatam quem fomos, jovens cheios de alegria, capazes de atitudes infantis, como éramos há 50 anos ou mais.

Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras… Mesmo que por fora restem apenas cabelos brancos e rugas.

A memória não permite que sejamos adultos para nossos pais. Eles não percebem que crescemos, seremos sempre “as crianças”, não importa quantos anos já se passaram. Para eles a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas… Ainda são muito recentes, aquilo se eternizou.

Por isso é tão difícil despedir-se de alguém especial que fez parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é bem assim. Ele só acalma os sentidos, apara as arestas e coloca um curativo na dor.

Aquilo que amamos sempre volta das profundezas a assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado pelo enredo de um filme, uma música antiga ou um lugar especial.

E mesmo que o tempo nos leve daqui seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nós amamos.

FONTE - http://www.ngcanela.com/o-que-a-memoria-ama-fica-eterno/ Post (319) – Janeiro de 2019

Sobre a Autora  - Fabíola Simões de Brito Lopes é mineira de Itajubá/Minas Gerais. É mãe,
dentista, influenciadora digital, youtuber e escritora. Tem quatro livros publicados. 

OBS da autora Fabíola Simões

 1 - Este texto foi ligeiramente modificado, resumido do  original e está licenciada por Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Todos os direitos reservados a Fabíola Simões de Brito Lopes https://www.asomadetodosafetos.com/2012/07/o-que-a-memoria-ama-fica-eterno.html).

 2 - A frase do título é de Adélia Prado.