quinta-feira, 27 de maio de 2021

A ESTRELA E O ANJO (Nelson Peixoto)

 

Dalva e Ângela, duas presenças amigas que amaram os idosos , numa época anterior às condições atuais do Dr. Thomas.

Entrevistando a Dalva Pereira Vieira, tomei conhecimento e presenciei o porquê de sua escolha para dirigir a Fundação Dr. Thomas , no final dos anos 80, na primeira gestão do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto.

O sucesso de gestão , como diretora de escola , convenceu o prefeito a convida-la ao cargo e a mobilizar forças para a recuperação do abrigo Dr. Thomas. Dalva fez resistência pesada para não aceitar, mas orou o suficiente para pelo menos ir conhecer. 

Conduzida pelo próprio Prefeito, ao entrar no abrigo sentiu o impacto com lágrimas , quando viu as condições deprimentes em que se encontrava. Entendeu tudo como aceno de Deus: "Fica aqui e torne esse lugar humano. Traga sua luz, Dalva, para clarear com sua estrela todo o amanhecer dessas noites tristes por aqui".

A experiência do abandono, da fome e do descuido dos idosos tornaram-se seu primeiro traçado de gestão. 

Começou pela busca da composição de sua equipe de apoio , que sintonizaria com sua compaixão e generosidade.

Em seguida, formou uma dupla ativista com a Ângela Peixoto e foi à procura da sustentabilidade junto a empresas do Distrito Industrial de  Manaus.

A partir de então, a Fundação começou a escrever novas histórias na vida de muitos pobres , que finalizaram seus dias sem família. 

Conseguiu que o Dr. Miguel Ângelo Peixoto, de grande sensibilidade humana, passasse  ser o clínico geral para ouvir os idosos e tratar suas doenças, bem mais do que as dores físicas. Próximo às pegadas do Dr. Harold Thomas, o Dr. Miguel muito contribuiu integrando-se a equipe da presidente Dalva e de Ângela Maria, sua mãe, para o bem estar geral dos internos, cujas paredes deixaram de exalar creolina, que na época se conhecia como desinfetante para limpeza pesada, comumente usada para espaços de animais.

Sim, uma estrela no final dos anos 80 pousou na casa de Idosos Dr. THOMAS , irradiando um brilho com ternura e valorização de cada acolhido. 

A estrela Dalva veio com um anjo  que se chamava Ângela Maria de Castro  Peixoto. Minha irmã , que com suas asas  mansas e generosas , pousou para curar a solidão e o abandono de homens e mulheres, no ocaso de suas vidas. 

Lembro-me dos nomes carinhosos que minha irmã Ângela e Dalva Vieira pronunciavam com carinho. 

Era impactante para mim , quando me falavam de algum dos moradores que seguia para Deus.

O abrigo podia se tornar um encanto de lugar que precisava de gente devotada ao cuidado, à escuta e à paciência. 

Bem poderia ser apenas um lugar de emprego comissionado e uma ocupação funcionalista, ausente de propósitos. 

Não  conheço, nem julgo a história anterior dos administradores, das condições políticas, nem dos sentimentos humanos que habitavam no coração dos antigos gestores e de suas equipes de servidores. Entretanto, o fato real foi que não havia ainda a legislação atual que floriu com os direitos da Terceira Idade, mas que certamente foi ensaio e prática daqueles que, em tempos anteriores, viveram e disseminaram a dignidade e o respeito aos idosos, como sujeitos de direitos e não como descartáveis e obsoletas criaturas, para o apressamento da morte.

O Estatuto do Idoso chegou contra a cultura enamorada pela barbárie por entender a vida apenas quando útil e produtiva materialmente. Não teria assim a consideração de uma vida cuja história foi única e valorosa em si, evitando-se a lógica do descarte sem piedade.

Para nós, civilizados como aprendizes das culturas ancestrais que povoaram esse chão, nunca nos restou dúvidas da sabedoria dos mais velhos. Sabedoria que chegou a nós e onde bebemos na fonte originária, em forma de remédios caseiros, de lendas e mitos reveladores de segredos da floresta e da preservação dos rios, dos lagos e dos animais.

Em contexto de Aldeia "primitiva" não vem mais a ideia do preguiçoso selvagem, do velho inútil e cansado, nem da criança imbecil que só da trabalho para criar.

Dito isto, sonhamos com a atual Fundação Dr. Thomas fidelizando-se na intenção inicial de seu fundador Harold Thomas e nos rastros da Dalva Pereira Vieira e de Ângela Maria de Castro Peixoto que esta crônica homenageia. 

Vem-nos propostas de um Educação intergeracional,  intersetorial e integral com o seguintes princípios e práticas inovadoras:

1. Crianças e idosos em interação, uma vez que o abrigo e a educação infantil estão no mesmo território da Fundação Dr. Thomas;

2. Comunidade, famílias e professores, em participação amistosa com os abrigados e os pais das crianças engajadas na dinâmica da escola;

3. Natureza e os espaços abertos dos caminhos,  brinquedos, árvores e flores e tantos projetos diversos como conteúdo de aprendizagem e sustentação da vida;

4. O potencial recreativo é cultural, artístico e de saúde para todos os envolvidos aprenderem a conviver com tolerância e sem preconceitos; 

5. A unidade das ações promotoras da Paz e da  Fraternidade como fermento da transmissão da sociedade na redução da desigualdade social. 

Enfim, Estrelas e Anjos sejam  sempre chamados a assumir no seu tempo a responsabilidade social.  Construam novas constelações nos céus da Justiça e com a Ternura das asas santas reacendam o fogo da solidariedade. 

(NP-30.04.21).


Sobre o Autor - Nelson Peixoto 
 -  Filósofo, Contador de histórias, Escritor de artigos de sua experiência de vida. Foi conselheiro de Direitos da Infância, Professor universitário, Gestor das Aldeias Infantis SOS Brasil,  por 26 anos, em Manaus e Brasília onde se empenhou com dedicação ao fortalecimentos de laços entre as crianças, os jovens e as famílias em situação de risco e vulnerabilidade social.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

SONHOS EM VIGÍLIA EM ABRIL DE 2021. (Nelson Peixoto)

 

O mês que os olhos ficaram mais abertos, calçamos o desejo de transmitir a paz e viver como testemunhas do Ressuscitado. Caminhamos assim para descobrir novos locais de missão.

Modestamente, situei-me num novo momento de vida, em um espaço fora das Aldeias SOS, o qual era meu local de moradia e também de referência de crianças, adolescentes e famílias, plantas e bichos. Tempo feliz de uma equipe que me apoiou, nunca esquecerei! 

Mês de rumos novos, de prospecção e pequenas descobertas. Tempo de olhar e mapear o território próximo no qual estou mergulhando lentamente. Tempo também de sondar o chão da Vila Amazônia, parte do bairro de Nossa Senhora das Graças e da história de Manaus que marcou a Assistência Social na cidade.

Refiro-me aqui ao Parque do Idoso, da Casa dos Velhinhos Dr. Thomas, dos becos da Vila Amazônia que ficam atrás das casas, lojas e empresas à direita da Av. Djalma Batista, sentido bairro. Mais ainda do igarapé do Mindú, cuja margem é povoada por gente humilde que vive com dificuldades.

Tais locais são contrariamente vividos em comparação ao Vieiralves dos bons restaurantes e dos condomínios mais confortáveis.

A Páscoa, em plena pandemia, aconteceu tal qual  como em Jesus, de morte e de vida, perdas e ganhos de eternidade, fé e esperanças! Quantos amigos foram mais cedo para Deus! Deixando saudades em forma de lágrimas e dores na alma dos amigos que ainda ficaram para lutar pela saúde de todos, pela justiça do Reino que Jesus disse estar no meio de nós. O seu mandato: "Ide e curai" teve eco em nós e nos mobilizou para ajudar.

Abril de lembrança de meu pai que, se estivesse vivo na terra,  estaria completando 117 anos. Memória de fiéis servidores da vida social como o Dr. Thomas, e também o Dr. Heitor Dourado. Este último foi o criador da Fundação de Medicina Tropical de Manaus, e foi também meu professor no começo dos anos 70. Sobre ele, prometo escrever mais tarde.


Mês de flores na chuva abundante, de aconchego para os que moram bem. Tempo de tristeza para os que perdem telhados com a força dos ventos. De águas que apavoram no meio da noite com o transbordamento dos igarapés. 

Mês dos sonhos povoados de Esperança: fim da pandemia, vacinação geral, saúde do corpo e da alma, retorno de crianças para a Escola, mais trabalho, remuneração justa e emprego. Tudo isso sendo alimentado com a vontade de ver o mundo diferente, em tempo de conciliação baseada nos valores que emergem do coração tocado pela presença de Deus amigo, que nos convida a ser parte da humanidade solidária na dor e na alegria. Somos crentes da Vitória da Vida em terra cuidada como habitação de todos. 
Cremos: "Jesus habita entre nós" movendo nossas forças contra tudo que nega a experiência de vida na carne e no espírito. Tudo se faz certeza na Copiosa Redenção, acontecida por Jesus e continuada por cada um de nós. 

(NP - 30.04.21).


Sobre o Autor -  Nelson Peixoto -  Filósofo, Contador de histórias, Escritor de artigos de sua experiência de vida. Foi conselheiro de Direitos da Infância, Professor universitário, Gestor das Aldeias Infantis SOS Brasil,  por 26 anos, em Manaus e Brasília onde se empenhou com dedicação ao fortalecimentos de laços entre as crianças, os jovens e as famílias em situação de risco e vulnerabilidade social.