quinta-feira, 26 de maio de 2022

LER POUCO (Rubem Alves)

 

Jovem, eu sonhava ter uma grande biblioteca. E fui assim, pela vida, comprando os livros que podia. Tive de desenvolver métodos para controlar minha voracidade, porque o dinheiro e o tempo eram poucos. Entrava na livraria, separava todos os livros que desejava comprar e, ao me aproximar do caixa, colocava-os sobre o balcão e me perguntava diante de cada um: “Tenho necessidade imediata desse livro? Tenho outros, em casa, ainda não lidos? Posso esperar?” E assim ia pegando cada um deles e devolvendo às prateleiras. A despeito desse método de controle, cheguei a ter uma biblioteca significativa, mais do que suficiente para as minhas necessidades.

Notei, à medida que envelhecia, uma mudança nas minhas preferências: passei a ter mais prazer na seção dos livros de arte nas livrarias. Os livros de ciência a gente lê uma vez, fica sabendo e não tem necessidade de ler de novo. Com os livros de arte acontece diferente. Cada vez que os abrimos é um encantamento novo! Creio que meu amor pelos livros de arte tem a ver com experiências infantis. Talvez que os psicanalistas interpretem esse amor como uma manifestação neurótica de regressão. Não me incomodo. Pois, em oposição à psicanálise que considera a infância como um período de imaturidade que deve ser ultrapassado para que nos tornemos adultos, eu, inspirado por teólogos e poetas, considero a maturidade como uma doença a ser curada. 

Bem reza a Adélia Prado: “Meu Deus, me dá cinco anos, me cura de ser grande...” E não pense que isso é maluquice de poeta. Peter Berger, um sociólogo inteligente e com senso de humor, definiu maturidade, essa qualidade tão valorizada, como “um estado de mente que se acomodou, ajustou-se ao status quo e abandonou os sonhos selvagens de aventura e realização...”. Menino de cinco anos, eu passava horas vendo um livro da minha mãe, cheio de figuras. Lembro-me: uma delas era um prédio de dez andares com a seguinte explicação: “Nos Estados Unidos há casas de dez andares”. E havia a figura de um caçador de jacarés, e de crianças esquimós saudando a chegada do sol.

O fato é que comecei a mudar os meus gostos e chegou um momento em que, olhando para aquelas estantes cheias de livros, eu me perguntei: “Já sou velho. Terei tempo de ler todos esses livros? Eu quero ler todos esses livros?” Não, nem tenho tempo nem quero. Então, por que guardá-los? Resolvi dar os livros que eu não amava. Compreendi, então, que não se pode falar em amor pelos livros, em geral. Um homem que diz amar todas as mulheres na verdade não ama nenhuma. Nunca se apaixonará. O mesmo vale para os livros. Assim, fui aos meus livros com as perguntas: “Você me ama?” (Acha que estou louco? É Roland Barthes que declara que o texto tem de dar provas de que me deseja. Há muitos livros que dão provas de que me odeiam. Outros me ignoram totalmente, nada querem de mim...), “Vou querer ler você de novo?” Se as respostas eram negativas, o livro era separado para ser dado.

Essa coisa de “amor universal aos livros” fez-me lembrar um texto de Nietzsche sobre o filósofo Tales de Mileto, em que ele recorda que a palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, “eu saboreio”, sapiens, “o degustador”,sisyphos, “o homem de gosto mais apurado”; um apurado degustar e distinguir, um significativo discernimento, constitui, pois, [...] a arte peculiar do filósofo. [...] A ciência, sem essa seleção, sem esse refinamento de gosto, precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço; enquanto o pensar filosófico está sempre no rastro das coisas dignas de serem sabidas...

E depois, no Zaratustra, ele comenta com ironia: “Mastigar e digerir tudo – essa é uma maneira suína”.

O fato é que muitos estudantes são obrigados a ler à maneira suína, mastigando e engolindo o que não desejam. Depois, é claro, vomitam tudo... Como eu já passei dessa fase, posso me entregar ao prazer de ler os livros à maneira canina. Nenhum cachorro abocanha a comida. Primeiro ele cheira. Se o nariz não disser “sim”, ele não come. Faço o mesmo com os livros. Primeiro cheiro. O que procuro? O cheiro do escritor. Se não tem cheiro humano, não como. Nietzsche também cheirava primeiro. Dizia só amar os livros escritos com sangue.

Ler é um ritual antropofágico. Sabia disso Murilo Mendes quando escreveu: “No tempo em que eu não era antropófago, isto é, no tempo em que eu não devorava livros – e os livros não são homens, não contêm a substância, o próprio sangue do homem?” A antropofagia não se fazia por razões alimentares. Fazia-se por razões mágicas. Quem come a carne do sacrificado se apropria das virtudes que moravam no seu corpo. Como na eucaristia cristã, que é um ritual antropofágico: “Esse pão é a minha carne, esse vinho é o meu sangue...” Cada livro é um sacramento. Cada leitura é um ritual mágico. Quem lê um livro escrito com sangue corre o risco de ficar parecido com o escritor. Já aconteceu comigo...

 Fonte: http://www.blogdogaleno.com.br/texto_ler.php?id=213&page=13 

***Os grifos são meus.



Sobre o autor – Rubem Alves nasceu em 15/09/1933 - Boa Esperança/Minas Gerais. Faleceu em 19/07/2014 – Campinas/São Paulo. Teólogo, filósofo e psicanalista, autor de vários livros.  de 40 livros.





terça-feira, 10 de maio de 2022

Escuta reativa (Parte 2)


ESCUTA REATIVA: pessoas que ouvem para refutar, não para entender (cont)


Os 3 passos para desativar a escuta reativa

Conversar com uma pessoa que escuta de forma reativa é muitas vezes exaustivo. É provável que você tente diferentes caminhos / argumentos e cada um tropeça em uma parede de mal-entendido. Isso pode ser muito frustrante. Nesses casos, para que o diálogo progrida, você precisa desativar esse modo de escuta.

No entanto, você deve partir do fato de que toda comunicação contém certo grau de dispersão, pois o que você acha do que seu interlocutor entende é uma boa distância. É por isso que você deve garantir que sua mensagem chegue da forma mais clara possível.

1. Estabeleça um ponto de partida comum. Continuar apresentando argumentos, ad infinitum, não ajudará. Você precisa voltar no começo. E estabeleça um novo ponto de partida com o qual ambos concordam. Em um relacionamento, esse ponto de partida pode ser que vocês dois se amem. Em uma relação de emprego, o ponto de partida pode ser que ambos precisem resolver o problema ou finalizar o projeto.

Essa verdade compartilhada permitirá, por um lado, encurtar a distância psicológica que foi criada e, por outro lado, estabelecer um precedente de concordância que predisponha positivamente o diálogo, fazendo com que ambos olhem na mesma direção, embora cada um pareça diferente. E isso já é um grande passo em frente.

2. Baixe as defesas. Não há nada pior para entender do que se sentir atacado. Portanto, você deve garantir que seu interlocutor se sinta relativamente à vontade. Use um tom de voz suave e calmo. Não precisa se mexer. Deixe-o saber que você entende seus argumentos e que entende sua posição, que seu objetivo é chegar a um acordo com o qual ambos se sintam à vontade, não para impor seu ponto de vista.

Se você conseguir derrubar os muros que seu interlocutor havia erguido, pode não chegar a um acordo imediatamente, mas pelo menos é provável que seus argumentos caiam e faça com que ele mude de ideia mais tarde. Para fazer isso, em vez de “atacar” suas ideias ou sentimentos, o ideal é falar sobre como você se sente e como essa situação afeta você. Em vez de acusar, fale sobre você. Mostrar vulnerabilidade é geralmente a ferramenta mais poderosa para desativar a escuta reativa e ativar a escuta ativa.

3. Aproveite cada acordo, por menor que seja. À primeira vista, parece uma contradição, mas a única maneira de fazer com que uma pessoa entenda e aceite seus argumentos é entender e aceitar os dele. A escuta reativa expira com a escuta ativa. Se você ativar uma escuta reativa, só poderá mergulhar em um diálogo de surdos.

Ouça os argumentos de seu interlocutor, não com a intenção de refutá-los, mas de procurar pontos em comum, por menores que sejam, e usá-los como tijolos para criar um discurso comum. Incorporar suas ideias na deles, para avançar pouco a pouco. A compreensão não é alcançada saltando de desacordo para acordo, mas construindo passos baseados em ideias ou sentimentos comuns. Toda vez que você destaca esses pontos de contato, você quebra as barreiras entre o “eu” e o “você”, criando um espaço de comunicação compartilhado que facilita a compreensão.

Finalmente, se você perceber que, naquele momento, a compreensão é impossível, é melhor ajustar a conversa para outra hora. Não discuta com um tolo ou com uma pessoa que, naquele momento, ficou ofuscada demais para progredir no diálogo. Lembre-se de que às vezes é melhor preservar a paz interior do que estar certo.

 

Fonte -  Pensar Contemporâneo  postado em 

https://www.pensarcontemporaneo.com/escuta-reativa-pessoas-que-ouvem-para-refutar-nao-para-entender/?fbclid=IwAR0jKgqDf07rWv3Uz_2OmCZ4rED8sw5-pYkwo7-QWnQjU0LEfaKuygK3IcY

 



quinta-feira, 28 de abril de 2022

Escuta reativa (Parte1)

 


ESCUTA REATIVA: pessoas que ouvem para refutar, não para entender

Você já conversou com uma pessoa e, apesar de ter recorrido a um grande arsenal de argumentos, você teve a sensação de falar com uma parede? Mesmo que você tenha lutado para explicar suas razões e entender as suas, para chegar a um acordo, você provavelmente teve a sensação de que elas não o entendem – ou não querem entendê-lo.

Não é que os seus argumentos tenham sido transformados em rabiscos, é provável que o diálogo não progrida porque o canal de comunicação foi quebrado – ou nunca estabelecido – porque o seu interlocutor não pretendia realmente compreender, mas apenas refutar.

Escuta reativa: Primeiro eu, depois eu e depois eu de novo

Epicteto disse que “assim como há uma arte de boa fala, há uma arte de ouvir bem”. E todos nós podemos ouvir, mas poucos são capazes de escutar.

A escuta ativa é uma habilidade relativamente rara, porque envolve não apenas ouvir o que a outra pessoa está dizendo, mas prestar atenção aos sentimentos e emoções subjacentes. Para isso, é essencial sair de nossa posição egocêntrica e assumir uma postura empática, sendo capaz de nos colocar na pele do outro para compreender plenamente sua mensagem.

A escuta ativa também implica um interesse autêntico na pessoa e em sua mensagem. Isso não significa que concordamos com suas ideias, mas estamos interessados em entendê-las. É por isso que é sinônimo de respeito e vontade de dialogar.

Infelizmente, em uma sociedade cada vez mais narcisista, muitas pessoas não conseguem desenvolver uma escuta ativa. Em vez de ouvir seu interlocutor para entender suas ideias e sentimentos, eles apenas ouvem seus argumentos para refutá-los, como se fosse um duelo.

A escuta reativa, como eu chamo este tipo de comunicação, implica entrincheirar-se por trás dos próprios pontos de vista, e acaba se tornando um obstáculo ao diálogo. Implica reagir às ideias do interlocutor de um ponto de vista egocêntrico, para impor seus próprios critérios, sem a intenção de chegar a um acordo vantajoso para ambos.

A pessoa que coloca em prática uma escuta reativa limita-se a reagir a partir de suas emoções, crenças e ideias, sem levar em conta as do interlocutor. Desta forma, não é possível criar o espaço compartilhado necessário para que ocorra a compreensão, de modo que acaba instalando um diálogo surdo.

Como saber se uma pessoa iniciou uma escuta reativa?

1. A pessoa não leva em conta o que seu interlocutor diz. Se ouvir os seus argumentos, é apenas para refutá-los.

2. Ele não presta o devido interesse nas palavras de seu interlocutor, demonstrando uma quase total falta de empatia.

3. Só está interessado em transmitir a sua mensagem – a qualquer custo – fechando qualquer argumento contrário às suas ideias.

O que mascara a escuta reativa? 

Muitas pessoas praticam a escuta reativa porque querem afirmar seus argumentos – não importa como ou a que preço. Basicamente, elas não estão interessadas nas ideias ou motivos que você pode-lhes dar, porque seu objetivo principal é impor suas razões, de modo que sua visão prevaleça.

Essas pessoas não estão procurando por um diálogo, mas sim começam uma batalha em que querem vencer. Elas não assumem o diálogo como uma oportunidade para crescer, mas como um duelo. Portanto, é provável que percebam seus argumentos como uma ameaça, simplesmente porque elas não correspondem aos delas, então sentem que precisam se defender.

Isto implica que eles ignorarão qualquer vislumbre da verdade que possa encerrar sua mensagem e que possa ajudá-los a mudar de ideia, ampliar sua perspectiva ou enriquecer seu ponto de vista, porque estão apenas à procura de possíveis contradições, imprecisões ou hesitações para contra-atacar.

É claro que todos podemos praticar a escuta reativa de tempos em tempos, especialmente quando sentimos que estamos atacando nosso ego e nos tornamos defensivos, mas assumi-lo como um estilo comunicativo implica pouca autoconfiança.

Uma pessoa madura, assertiva e autoconfiante não sente a necessidade de impor seus argumentos, mas está aberta ao diálogo e receptiva a diferentes pontos de vista que podem enriquecer sua visão de mundo ou ajudá-lo a entender melhor quem está à sua frente... Portanto, no fundo, a escuta reativa é a expressão de um ego frágil ou de profunda insegurança pessoal.

Martin Luther King disse que “sua verdade aumentará quando você souber ouvir a verdade dos outros”. A pessoa que fecha as portas para as ideias dos outros acaba correndo o risco de ficar presa a uma visão cada vez mais limitada do mundo, da vida e de si mesma.

Fonte -  Pensar Contemporâneo  postado em 

https://www.pensarcontemporaneo.com/escuta-reativa-pessoas-que-ouvem-para-refutar-nao-para-entender/?fbclid=IwAR0jKgqDf07rWv3Uz_2OmCZ4rED8sw5-pYkwo7-QWnQjU0LEfaKuygK3IcY

sábado, 23 de abril de 2022

“O que a memória ama, fica eterno” (*frase de Adélia Prado)

 

Quando jovem, não entendia o choro dos adultos ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que não choravam por coisas visíveis. Choravam pela eternidade que vivia dentro deles e que eu era incapaz de compreender. O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocadas por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando cada momento. Jovens têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para eles, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a vida é impregnada de eternidade.

Com o tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, outros partem. Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas e amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão pertos, nossos entes queridos ainda vivem.

O que a memória ama, fica eterno. Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos e nos damos conta do que guardamos em nossos baús secretos. A memória é dada a segredos recheados daquilo que amamos, que deixou saudades e permaneceu além do tempo.

A capacidade de se emocionar vem daí, quando nossas memórias afloram de alguma maneira. Um dia você liga o rádio e neste toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música fez parte de você, foi o fundo musical de um amor, ou de uma fossa e mesmo que tenham se passado anos, alguma parte de você volta no tempo lembrando de uma pessoa, de um momento, de uma época…


Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos, já adultos ou até idosos, portam-se como adolescentes. Encontros de amigos são especiais por isso, resgatam quem fomos, jovens cheios de alegria, capazes de atitudes infantis, como éramos há 50 anos ou mais.

Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras… Mesmo que por fora restem apenas cabelos brancos e rugas.

A memória não permite que sejamos adultos para nossos pais. Eles não percebem que crescemos, seremos sempre “as crianças”, não importa quantos anos já se passaram. Para eles a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas… Ainda são muito recentes, aquilo se eternizou.

Por isso é tão difícil despedir-se de alguém especial que fez parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é bem assim. Ele só acalma os sentidos, apara as arestas e coloca um curativo na dor.

Aquilo que amamos sempre volta das profundezas a assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado pelo enredo de um filme, uma música antiga ou um lugar especial.

E mesmo que o tempo nos leve daqui seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nós amamos.

FONTE - http://www.ngcanela.com/o-que-a-memoria-ama-fica-eterno/ Post (319) – Janeiro de 2019

Sobre a Autora  - Fabíola Simões de Brito Lopes é mineira de Itajubá/Minas Gerais. É mãe,
dentista, influenciadora digital, youtuber e escritora. Tem quatro livros publicados. 

OBS da autora Fabíola Simões

 1 - Este texto foi ligeiramente modificado, resumido do  original e está licenciada por Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Todos os direitos reservados a Fabíola Simões de Brito Lopes https://www.asomadetodosafetos.com/2012/07/o-que-a-memoria-ama-fica-eterno.html).

 2 - A frase do título é de Adélia Prado.



terça-feira, 29 de março de 2022

A Abelha de Salomão (Conto de tradição Judaica)

 


Certa vez, a rainha de Sabá recebeu a importante visita do rei Salomão, o homem mais sábio da época.

A rainha lhe propôs um enigma: Conduziu-o até um dos aposentos do seu palácio, que os artesãos haviam enchido de flores artificiais. Era como se, num prado maravilhoso, flores das mais variadas espécies e dos mais diferentes aromas oscilassem suavemente ao sabor de uma brisa.

A rainha disse ao rei Salomão: “Uma dessas flores é natural. Pode me dizer qual é?” Salomão olhou atentamente, lançou mão de todos os recursos de sua sensibilidade, mas não conseguiu apontar a flor natural.

Então pensativo, lhe veio uma ideia e disse à rainha: “Posso abrir uma janela?” Com a permissão, ele abriu e eis que uma abelha entrou e pousou na única flor natural que havia ali à procura do néctar para o seu mel.

E assim o sábio Salomão identificou sem grande espalhafato qual era a flor natural....

 

Reflexão - para ser sábio não é preciso fazer grandes espetáculos, nem fazer coisas fantásticas ou fora do comum... É preciso apenas ter um coração puro e simples.

“Ser sábio é ter um coração puro e simples.”

sexta-feira, 11 de março de 2022

Casa da mãe depois que os filhos se vão… ( Miryan Lucy Rezende)

Casa de mãe depois que os filhos se vão é um oratório. 

Amanhece e anoitece, prece. Já não temos acesso àquelas coisinhas básicas do dia a dia, as recomendações e perguntas que tanto a eles desagradavam e enfureciam: com quem vai, onde é, a que horas começa, a que horas termina, a que horas você chega, vem cá menina, pega a blusa de frio, cadê os documentos, filho.

Impossibilitados os avisos e recomendações, só nos resta a oração, daí tropeçamos todos os dias em nossos santos e santas de preferência, e nossa devoção levanta as mãos já no café da manhã e se deita conosco.

Casa de mãe depois que os filhos se vão é lugar de silêncio, falta nela a conversa, a risada, a implicância, a displicência, a desorganização. Falta panela suja, copos nos quartos, luzes acesas sem necessidade… 

Aliás, casa de mãe, depois que os filhos se vão, vive acesa. É um iluminado protesto a tanta ausência.

Casa de mãe depois que os filhos se vão tem sempre o mesmo cheiro. Falta-lhe o perfume que eles passam e deixam antes da balada, falta cheiro de shampoo derramado no banheiro, falta a embriaguez de alho fritando para refogar arroz, falta aroma da cebola que a gente pica escondido porque um deles não gosta (mas como fazer aquele prato sem colocá-la?), falta a cara boa raspando o prato, o “isso tá bão, mãe”. O melhor agradecimento é um prato vazio, quando os filhos ainda estão. Agora, falta cozinha cheia de desejos atendidos.

Casa de mãe depois que os filhos se vão é um recorte no tempo, é um rasgo na alma. É quarto demais, e gente de menos.

É retrato de um tempo em que a gente vivia distraída da alegria abundante deles. Um tempo de maturar frutos, para dá-los a colher ao mundo. Até que esse dia chega, e lá se vai seu fruto ganhar estrada, descobrir seus rumos, navegar por conta própria com as mãos no leme que você , um dia, lhe mostrou como manejar.

Aí fica a casa e, nela, as coisas que eles não levam de jeito nenhum para a nova vida, mas também não as dispensam: o caminhão da infância, a boneca na porta do quarto, os livros, discos, papéis e desenhos e fotografias – todas te olhando em estranha provocação. 

Casa de mãe depois que os filhos se vão não é mais casa de mãe. É a casa da mãe. Para onde eles voltam num feriado, em um final de semana, num pedaço de férias.

Casa de mãe depois que os filhos se vão é um grande portão esperando ser aberto. É corredor solitário aguardando que eles o atravessem rumo aos quartos. É área de serviço sem serviço.

Casa de mãe depois que os filhos se vão tem sempre alguém rezando, um cachorrinho esperando, e muitos dias, todos enfileirados, obedientes e esperançosos da certeza de qualquer dia eles chegam e você vai agradecer por todas as suas preces terem sido atendidas. 

Por que, vamos combinar, não é que você fez direitinho seu trabalho, e estava certo quem disse que quem sai aos seus não degenera e aqueles frutos não caíram longe do pé?

E saudade, afinal, não é mesmo uma casa que se chama mãe?


FONTE - Pensar Contemporâneo - postado em 3 de janeiro de 2019. Miryan Lucy de Rezende – Uberlândia MG. 


Sobre a Autora -  Miryan Lucy Rezende é uma educadora infantil e escritora brasileira que compartilha seus textos sensíveis nas redes sociais. 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

EMPATIA – IMPORTÂNCIA PARA O CONVÍVIO SOCIAL

 

A empatia é a arte de se colocar no lugar do outro a fim de compreendê-lo emocionalmente.

Trata-se de uma capacidade poderosa e transformadora, pois faz com que as pessoas se relacionem de modo mais respeitoso e compassivo, algo que a sociedade realmente precisa. Consegue imaginar o quanto o mundo seria melhor se um se colocasse no lugar do outro antes de agir? Certamente teríamos uma redução drástica no número de desentendimentos, agressões e outros tipos de problemas.

Empatia - importante  para os relacionamentos entre familiares, amigos, colegas de trabalho, e a sociedade como um todo...

Entenda o que é empatia na prática

Cada indivíduo enxerga o mundo à sua maneira, de acordo com suas vivências e seus valores. É por isso que um grupo de pessoas pode ter opiniões tão distintas sobre um mesmo assunto, porque cada uma tem uma história pregressa que a fez pensar dessa ou daquela forma. Isso é natural e até saudável, pois permite que um aprenda com o outro, mas, para que esse benefício seja alcançado, é preciso que haja respeito ao diferente, o que só é possível quando existe empatia.

Para que se entenda melhor, vamos imaginar uma situação que se tornou bastante comum nos últimos anos no Brasil, as divergências políticas. Familiares, amigos, colegas de trabalho, muitos se afastaram por discordar uns dos outros. Relacionamentos de anos interrompidos porque um não conseguiu se colocar no lugar do outro para buscar entender o que o motivou a ter aquela opinião.

Sim, a empatia poderia ser bastante útil em uma situação assim. Quando você é empático, consegue se colocar no lugar do outro para imaginar os motivos pelos quais ele pensa de determinada maneira em relação à política e outros temas, e dá para fazer isso mesmo sem concordar e achar que aquilo está certo.

A autora inglesa Evelyn Beatrice Hall, ao escrever a biografia de Voltaire, resumiu em uma frase uma das ideias mais importantes do filósofo e que tem tudo a ver com a empatia em relação aos pensamentos de terceiros: “Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Quando se é empático, você reconhece a diversidade presente no mundo e busca compreendê-la e respeitá-la em vez de apenas julgar.

Motivos pelos quais a empatia é importante para o convívio social

Depois de entender o que é a empatia na prática, veja sete motivos pelos quais ela é um valor essencial para o convívio em sociedade.

1 – Gera respeito

Todo ser humano deseja ser tratado com respeito, em qualquer situação. Entretanto, nem todos tratam os demais de modo respeitoso, o que ocorre exatamente pela falta de empatia. Quando se é empático, o respeito se torna algo intrínseco ao comportamento do indivíduo, porque ele sempre irá pensar que poderia estar naquele outro lugar, de estar necessitando de uma ajuda, de ter uma opinião diferente, enfim, em qualquer tipo de situação.

2 – Evita conflitos

Basicamente, os conflitos acontecem quando duas pessoas têm divergência de ideias e uma não consegue compreender a outra, algo que poderia ser resolvido através da empatia. É claro que quando uma decisão que irá impactar a vida de dois ou mais indivíduos precisa ser tomada, é realmente importante que cada um exponha sua visão. Mas, se todos forem empáticos conseguirão fazer isso de forma muito mais amigável e produtiva, chegando a um meio termo que não privilegie e nem prejudique demais nenhum dos envolvidos.

3 – Faz bem para os relacionamentos

A empatia é um valor essencial em qualquer tipo de relacionamento, sem ela, os envolvidos irão agir focados apenas em seus próprios interesses, deixando de lado aspectos muito importantes em relações entre amigos, familiares, cônjuges. Enxergar as coisas através da perspectiva do outro é necessário para que haja respeito, entendimento em relação aos sentimentos envolvidos, demonstrações de carinho, perdão. Ser empático permite que visite o mundo do outro a fim de conhecê-lo melhor e aprenda a lidar com ele de modo positivo.

4 – Estimula gestos de solidariedade

O ser humano, de modo geral, tem a tendência de se sensibilizar com histórias tristes. Porém, isso pode gerar dois tipos de sentimento: pena e empatia. No primeiro caso, há apenas a tristeza pelo que foi visto e pronto, nada acontece. Já quando se trata de empatia, o fato de uma pessoa se colocar no lugar da outra, faz com que ela sinta uma grande vontade de ajudar a reduzir aquele sofrimento através de um gesto solidário. Pessoas envolvidas em causas sociais o fazem principalmente porque são empática e têm a consciência de que poderiam ser elas precisando daquela ajuda.

5 – Mais entendimento entre as pessoas

Quanto mais as pessoas se colocam no lugar umas das outras, mais elas conseguem se entender, se respeitar e aprender lições poderosas através dessas experiências. Isso é maravilhoso porque promove a união em vez do afastamento e sabemos o quanto seres humanos unidos tornam-se capazes de realizar coisas grandiosas. O entendimento faz bem para famílias, comunidades, empresas, para o mundo!

6 – Comunicação mais eficaz

Comunicar-se é o ato de transmitir uma mensagem para uma ou várias pessoas. Para que isso seja feito de maneira eficaz, é preciso usar as palavras certas para que o interlocutor realmente compreenda o que está sendo dito, o que se torna ainda mais forte através da empatia. Um indivíduo que possui essa habilidade emocional pensa em quem irá ouvir antes de simplesmente dizer o que lhe vem à cabeça, adaptando a mensagem de acordo com quem irá recebê-la.

7 – É boa para os negócios

Uma empresa que não tem a empatia como um de seus valores, provavelmente não conseguirá oferecer produtos e serviços que estejam de acordo com o que os clientes precisam. Esse olhar sensível de pensar em soluções através do ponto de vista do consumidor e oferecer um atendimento que siga o mesmo princípio, é o que permite que as companhias se destaquem no mercado e tornem-se referência em sua área de atuação.

Dicas para ter mais empatia e contribuir para um convívio harmônico em sociedade

Em vez de se lamentar por conta da falta de empatia na sociedade, escolha fazer a sua parte e contribuir para um convívio mais harmônico. Acredite, através de pequenas atitudes em seu dia a dia, poderá influenciar pessoas ao seu redor e promover mudanças positivas.

1 – Faça o exercício constante de se colocar no lugar dos outros

A primeira dica é um tanto quanto óbvia, mas é o passo mais importante para tornar a empatia um valor presente em suas ações. Busque fazer esse exercício sempre, colocando-se no lugar de qualquer pessoa que, por algum motivo, lhe gerar algum tipo de incômodo. Quando perceber essa resistência, pare e se imagine naquele lugar, mas faça isso de todo o coração, considerando todos os detalhes envolvidos. Provavelmente sua visão a respeito do outro irá se transformar.

2 – Ouça as pessoas com toda sua atenção

Ouvir na essência é um gesto altamente empático e que pode transformar o modo com o qual as pessoas se relacionam. Em vez de usar o tempo de fala do outro durante uma conversa para formular o que vai dizer, prefira ouvi-lo com toda a sua atenção. Faça perguntas se precisar de alguma informação extra, isso também funciona como uma demonstração do seu interesse e certamente tornará o diálogo mais produtivo.

3 – Evite ao máximo julgar

Quando julgamos alguém, nos colocamos em uma posição de superioridade, como se nunca fôssemos cometer aquele mesmo erro, o que na maioria das vezes não é verdade. Portanto, ao perceber que está julgando outra pessoa, pare e faça o exercício sugerido na dica número 1. E se fosse você naquela mesma situação, como estaria se sentindo? Gostaria de ter outras pessoas te julgando? Responda essas perguntas a si mesmo da forma mais sincera possível e comprove que julgamentos desse tipo nunca são justos.

4 – Ajude alguém sempre que puder

Permita que a empatia que sente seja uma semente de compaixão e solidariedade, ajudando outras pessoas sempre que isso estiver ao seu alcance. Vale ressaltar que, para fazer isso, você não precisa ter o poder de mudar completamente a vida do outro, uma atitude simples já é capaz de promover uma grande diferença, nem que seja para que aquele que recebê-la se sinta acolhido.

5 – Trate a todos com o mesmo respeito com o qual gostaria de ser tratado

Por fim, busque sempre usar a empatia como combustível para o respeito. Antes de se exaltar com alguém no trânsito, fazer algo que prejudique um terceiro, agir com grosseria, pense se gostaria que fizessem o mesmo contigo. Esse é o melhor termômetro para medir suas ações e contribuir para um convívio social mais positivo. E quando errar, porque é natural que isso aconteça, tenha o respeito de reconhecer a falha e pedir desculpas.

Tenha sempre em mente que o oposto da raiva não é a calma e sim a empatia, ela é a melhor conselheira que alguém pode ter. (...).

 Fontes: https://www.ibccoaching.com.br/portal/comportamento/empatia-qual-sua-importancia-convivio-social/

Sobre o autor: José Roberto Marques estudioso do Desenvolvimento Humano. Focado no propósito de fazer com que o ser humano seja capaz de atingir o seu Potencial Infinito. Fundou o IBC - Instituto Brasileiro de Coaching em 2007. É autor de mais de 50 livros publicados.