sábado, 23 de abril de 2022

“O que a memória ama, fica eterno” (*frase de Adélia Prado)

 

Quando jovem, não entendia o choro dos adultos ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que não choravam por coisas visíveis. Choravam pela eternidade que vivia dentro deles e que eu era incapaz de compreender. O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocadas por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando cada momento. Jovens têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para eles, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a vida é impregnada de eternidade.

Com o tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, outros partem. Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas e amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão pertos, nossos entes queridos ainda vivem.

O que a memória ama, fica eterno. Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos e nos damos conta do que guardamos em nossos baús secretos. A memória é dada a segredos recheados daquilo que amamos, que deixou saudades e permaneceu além do tempo.

A capacidade de se emocionar vem daí, quando nossas memórias afloram de alguma maneira. Um dia você liga o rádio e neste toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música fez parte de você, foi o fundo musical de um amor, ou de uma fossa e mesmo que tenham se passado anos, alguma parte de você volta no tempo lembrando de uma pessoa, de um momento, de uma época…


Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos, já adultos ou até idosos, portam-se como adolescentes. Encontros de amigos são especiais por isso, resgatam quem fomos, jovens cheios de alegria, capazes de atitudes infantis, como éramos há 50 anos ou mais.

Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras… Mesmo que por fora restem apenas cabelos brancos e rugas.

A memória não permite que sejamos adultos para nossos pais. Eles não percebem que crescemos, seremos sempre “as crianças”, não importa quantos anos já se passaram. Para eles a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas… Ainda são muito recentes, aquilo se eternizou.

Por isso é tão difícil despedir-se de alguém especial que fez parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é bem assim. Ele só acalma os sentidos, apara as arestas e coloca um curativo na dor.

Aquilo que amamos sempre volta das profundezas a assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado pelo enredo de um filme, uma música antiga ou um lugar especial.

E mesmo que o tempo nos leve daqui seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nós amamos.

FONTE - http://www.ngcanela.com/o-que-a-memoria-ama-fica-eterno/ Post (319) – Janeiro de 2019

Sobre a Autora  - Fabíola Simões de Brito Lopes é mineira de Itajubá/Minas Gerais. É mãe,
dentista, influenciadora digital, youtuber e escritora. Tem quatro livros publicados. 

OBS da autora Fabíola Simões

 1 - Este texto foi ligeiramente modificado, resumido do  original e está licenciada por Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Todos os direitos reservados a Fabíola Simões de Brito Lopes https://www.asomadetodosafetos.com/2012/07/o-que-a-memoria-ama-fica-eterno.html).

 2 - A frase do título é de Adélia Prado.



terça-feira, 29 de março de 2022

A Abelha de Salomão (Conto de tradição Judaica)

 


Certa vez, a rainha de Sabá recebeu a importante visita do rei Salomão, o homem mais sábio da época.

A rainha lhe propôs um enigma: Conduziu-o até um dos aposentos do seu palácio, que os artesãos haviam enchido de flores artificiais. Era como se, num prado maravilhoso, flores das mais variadas espécies e dos mais diferentes aromas oscilassem suavemente ao sabor de uma brisa.

A rainha disse ao rei Salomão: “Uma dessas flores é natural. Pode me dizer qual é?” Salomão olhou atentamente, lançou mão de todos os recursos de sua sensibilidade, mas não conseguiu apontar a flor natural.

Então pensativo, lhe veio uma ideia e disse à rainha: “Posso abrir uma janela?” Com a permissão, ele abriu e eis que uma abelha entrou e pousou na única flor natural que havia ali à procura do néctar para o seu mel.

E assim o sábio Salomão identificou sem grande espalhafato qual era a flor natural....

 

Reflexão - para ser sábio não é preciso fazer grandes espetáculos, nem fazer coisas fantásticas ou fora do comum... É preciso apenas ter um coração puro e simples.

“Ser sábio é ter um coração puro e simples.”

sexta-feira, 11 de março de 2022

Casa da mãe depois que os filhos se vão… ( Miryan Lucy Rezende)

Casa de mãe depois que os filhos se vão é um oratório. 

Amanhece e anoitece, prece. Já não temos acesso àquelas coisinhas básicas do dia a dia, as recomendações e perguntas que tanto a eles desagradavam e enfureciam: com quem vai, onde é, a que horas começa, a que horas termina, a que horas você chega, vem cá menina, pega a blusa de frio, cadê os documentos, filho.

Impossibilitados os avisos e recomendações, só nos resta a oração, daí tropeçamos todos os dias em nossos santos e santas de preferência, e nossa devoção levanta as mãos já no café da manhã e se deita conosco.

Casa de mãe depois que os filhos se vão é lugar de silêncio, falta nela a conversa, a risada, a implicância, a displicência, a desorganização. Falta panela suja, copos nos quartos, luzes acesas sem necessidade… 

Aliás, casa de mãe, depois que os filhos se vão, vive acesa. É um iluminado protesto a tanta ausência.

Casa de mãe depois que os filhos se vão tem sempre o mesmo cheiro. Falta-lhe o perfume que eles passam e deixam antes da balada, falta cheiro de shampoo derramado no banheiro, falta a embriaguez de alho fritando para refogar arroz, falta aroma da cebola que a gente pica escondido porque um deles não gosta (mas como fazer aquele prato sem colocá-la?), falta a cara boa raspando o prato, o “isso tá bão, mãe”. O melhor agradecimento é um prato vazio, quando os filhos ainda estão. Agora, falta cozinha cheia de desejos atendidos.

Casa de mãe depois que os filhos se vão é um recorte no tempo, é um rasgo na alma. É quarto demais, e gente de menos.

É retrato de um tempo em que a gente vivia distraída da alegria abundante deles. Um tempo de maturar frutos, para dá-los a colher ao mundo. Até que esse dia chega, e lá se vai seu fruto ganhar estrada, descobrir seus rumos, navegar por conta própria com as mãos no leme que você , um dia, lhe mostrou como manejar.

Aí fica a casa e, nela, as coisas que eles não levam de jeito nenhum para a nova vida, mas também não as dispensam: o caminhão da infância, a boneca na porta do quarto, os livros, discos, papéis e desenhos e fotografias – todas te olhando em estranha provocação. 

Casa de mãe depois que os filhos se vão não é mais casa de mãe. É a casa da mãe. Para onde eles voltam num feriado, em um final de semana, num pedaço de férias.

Casa de mãe depois que os filhos se vão é um grande portão esperando ser aberto. É corredor solitário aguardando que eles o atravessem rumo aos quartos. É área de serviço sem serviço.

Casa de mãe depois que os filhos se vão tem sempre alguém rezando, um cachorrinho esperando, e muitos dias, todos enfileirados, obedientes e esperançosos da certeza de qualquer dia eles chegam e você vai agradecer por todas as suas preces terem sido atendidas. 

Por que, vamos combinar, não é que você fez direitinho seu trabalho, e estava certo quem disse que quem sai aos seus não degenera e aqueles frutos não caíram longe do pé?

E saudade, afinal, não é mesmo uma casa que se chama mãe?


FONTE - Pensar Contemporâneo - postado em 3 de janeiro de 2019. Miryan Lucy de Rezende – Uberlândia MG. 


Sobre a Autora -  Miryan Lucy Rezende é uma educadora infantil e escritora brasileira que compartilha seus textos sensíveis nas redes sociais. 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

EMPATIA – IMPORTÂNCIA PARA O CONVÍVIO SOCIAL

 

A empatia é a arte de se colocar no lugar do outro a fim de compreendê-lo emocionalmente.

Trata-se de uma capacidade poderosa e transformadora, pois faz com que as pessoas se relacionem de modo mais respeitoso e compassivo, algo que a sociedade realmente precisa. Consegue imaginar o quanto o mundo seria melhor se um se colocasse no lugar do outro antes de agir? Certamente teríamos uma redução drástica no número de desentendimentos, agressões e outros tipos de problemas.

Empatia - importante  para os relacionamentos entre familiares, amigos, colegas de trabalho, e a sociedade como um todo...

Entenda o que é empatia na prática

Cada indivíduo enxerga o mundo à sua maneira, de acordo com suas vivências e seus valores. É por isso que um grupo de pessoas pode ter opiniões tão distintas sobre um mesmo assunto, porque cada uma tem uma história pregressa que a fez pensar dessa ou daquela forma. Isso é natural e até saudável, pois permite que um aprenda com o outro, mas, para que esse benefício seja alcançado, é preciso que haja respeito ao diferente, o que só é possível quando existe empatia.

Para que se entenda melhor, vamos imaginar uma situação que se tornou bastante comum nos últimos anos no Brasil, as divergências políticas. Familiares, amigos, colegas de trabalho, muitos se afastaram por discordar uns dos outros. Relacionamentos de anos interrompidos porque um não conseguiu se colocar no lugar do outro para buscar entender o que o motivou a ter aquela opinião.

Sim, a empatia poderia ser bastante útil em uma situação assim. Quando você é empático, consegue se colocar no lugar do outro para imaginar os motivos pelos quais ele pensa de determinada maneira em relação à política e outros temas, e dá para fazer isso mesmo sem concordar e achar que aquilo está certo.

A autora inglesa Evelyn Beatrice Hall, ao escrever a biografia de Voltaire, resumiu em uma frase uma das ideias mais importantes do filósofo e que tem tudo a ver com a empatia em relação aos pensamentos de terceiros: “Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Quando se é empático, você reconhece a diversidade presente no mundo e busca compreendê-la e respeitá-la em vez de apenas julgar.

Motivos pelos quais a empatia é importante para o convívio social

Depois de entender o que é a empatia na prática, veja sete motivos pelos quais ela é um valor essencial para o convívio em sociedade.

1 – Gera respeito

Todo ser humano deseja ser tratado com respeito, em qualquer situação. Entretanto, nem todos tratam os demais de modo respeitoso, o que ocorre exatamente pela falta de empatia. Quando se é empático, o respeito se torna algo intrínseco ao comportamento do indivíduo, porque ele sempre irá pensar que poderia estar naquele outro lugar, de estar necessitando de uma ajuda, de ter uma opinião diferente, enfim, em qualquer tipo de situação.

2 – Evita conflitos

Basicamente, os conflitos acontecem quando duas pessoas têm divergência de ideias e uma não consegue compreender a outra, algo que poderia ser resolvido através da empatia. É claro que quando uma decisão que irá impactar a vida de dois ou mais indivíduos precisa ser tomada, é realmente importante que cada um exponha sua visão. Mas, se todos forem empáticos conseguirão fazer isso de forma muito mais amigável e produtiva, chegando a um meio termo que não privilegie e nem prejudique demais nenhum dos envolvidos.

3 – Faz bem para os relacionamentos

A empatia é um valor essencial em qualquer tipo de relacionamento, sem ela, os envolvidos irão agir focados apenas em seus próprios interesses, deixando de lado aspectos muito importantes em relações entre amigos, familiares, cônjuges. Enxergar as coisas através da perspectiva do outro é necessário para que haja respeito, entendimento em relação aos sentimentos envolvidos, demonstrações de carinho, perdão. Ser empático permite que visite o mundo do outro a fim de conhecê-lo melhor e aprenda a lidar com ele de modo positivo.

4 – Estimula gestos de solidariedade

O ser humano, de modo geral, tem a tendência de se sensibilizar com histórias tristes. Porém, isso pode gerar dois tipos de sentimento: pena e empatia. No primeiro caso, há apenas a tristeza pelo que foi visto e pronto, nada acontece. Já quando se trata de empatia, o fato de uma pessoa se colocar no lugar da outra, faz com que ela sinta uma grande vontade de ajudar a reduzir aquele sofrimento através de um gesto solidário. Pessoas envolvidas em causas sociais o fazem principalmente porque são empática e têm a consciência de que poderiam ser elas precisando daquela ajuda.

5 – Mais entendimento entre as pessoas

Quanto mais as pessoas se colocam no lugar umas das outras, mais elas conseguem se entender, se respeitar e aprender lições poderosas através dessas experiências. Isso é maravilhoso porque promove a união em vez do afastamento e sabemos o quanto seres humanos unidos tornam-se capazes de realizar coisas grandiosas. O entendimento faz bem para famílias, comunidades, empresas, para o mundo!

6 – Comunicação mais eficaz

Comunicar-se é o ato de transmitir uma mensagem para uma ou várias pessoas. Para que isso seja feito de maneira eficaz, é preciso usar as palavras certas para que o interlocutor realmente compreenda o que está sendo dito, o que se torna ainda mais forte através da empatia. Um indivíduo que possui essa habilidade emocional pensa em quem irá ouvir antes de simplesmente dizer o que lhe vem à cabeça, adaptando a mensagem de acordo com quem irá recebê-la.

7 – É boa para os negócios

Uma empresa que não tem a empatia como um de seus valores, provavelmente não conseguirá oferecer produtos e serviços que estejam de acordo com o que os clientes precisam. Esse olhar sensível de pensar em soluções através do ponto de vista do consumidor e oferecer um atendimento que siga o mesmo princípio, é o que permite que as companhias se destaquem no mercado e tornem-se referência em sua área de atuação.

Dicas para ter mais empatia e contribuir para um convívio harmônico em sociedade

Em vez de se lamentar por conta da falta de empatia na sociedade, escolha fazer a sua parte e contribuir para um convívio mais harmônico. Acredite, através de pequenas atitudes em seu dia a dia, poderá influenciar pessoas ao seu redor e promover mudanças positivas.

1 – Faça o exercício constante de se colocar no lugar dos outros

A primeira dica é um tanto quanto óbvia, mas é o passo mais importante para tornar a empatia um valor presente em suas ações. Busque fazer esse exercício sempre, colocando-se no lugar de qualquer pessoa que, por algum motivo, lhe gerar algum tipo de incômodo. Quando perceber essa resistência, pare e se imagine naquele lugar, mas faça isso de todo o coração, considerando todos os detalhes envolvidos. Provavelmente sua visão a respeito do outro irá se transformar.

2 – Ouça as pessoas com toda sua atenção

Ouvir na essência é um gesto altamente empático e que pode transformar o modo com o qual as pessoas se relacionam. Em vez de usar o tempo de fala do outro durante uma conversa para formular o que vai dizer, prefira ouvi-lo com toda a sua atenção. Faça perguntas se precisar de alguma informação extra, isso também funciona como uma demonstração do seu interesse e certamente tornará o diálogo mais produtivo.

3 – Evite ao máximo julgar

Quando julgamos alguém, nos colocamos em uma posição de superioridade, como se nunca fôssemos cometer aquele mesmo erro, o que na maioria das vezes não é verdade. Portanto, ao perceber que está julgando outra pessoa, pare e faça o exercício sugerido na dica número 1. E se fosse você naquela mesma situação, como estaria se sentindo? Gostaria de ter outras pessoas te julgando? Responda essas perguntas a si mesmo da forma mais sincera possível e comprove que julgamentos desse tipo nunca são justos.

4 – Ajude alguém sempre que puder

Permita que a empatia que sente seja uma semente de compaixão e solidariedade, ajudando outras pessoas sempre que isso estiver ao seu alcance. Vale ressaltar que, para fazer isso, você não precisa ter o poder de mudar completamente a vida do outro, uma atitude simples já é capaz de promover uma grande diferença, nem que seja para que aquele que recebê-la se sinta acolhido.

5 – Trate a todos com o mesmo respeito com o qual gostaria de ser tratado

Por fim, busque sempre usar a empatia como combustível para o respeito. Antes de se exaltar com alguém no trânsito, fazer algo que prejudique um terceiro, agir com grosseria, pense se gostaria que fizessem o mesmo contigo. Esse é o melhor termômetro para medir suas ações e contribuir para um convívio social mais positivo. E quando errar, porque é natural que isso aconteça, tenha o respeito de reconhecer a falha e pedir desculpas.

Tenha sempre em mente que o oposto da raiva não é a calma e sim a empatia, ela é a melhor conselheira que alguém pode ter. (...).

 Fontes: https://www.ibccoaching.com.br/portal/comportamento/empatia-qual-sua-importancia-convivio-social/

Sobre o autor: José Roberto Marques estudioso do Desenvolvimento Humano. Focado no propósito de fazer com que o ser humano seja capaz de atingir o seu Potencial Infinito. Fundou o IBC - Instituto Brasileiro de Coaching em 2007. É autor de mais de 50 livros publicados.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

É preciso remar contra a corrente... (Postado em 13/11/2017)

 

A possibilidade de refletirmos sobre vários aspectos do SER HUMANO e das várias dimensões que devem estar presentes na arte de “com-viver” é contemplada nas palavras de .Mia Couto na cerimônia de recebimento do Título de Doutor Honoris Causa em 2015.

Destaco aqui parte de suas palavras naquele momento...


 

"[...]. Um dia destes, um jovem funcionário propôs-me o pagamento de um suborno para emitir um documento. Aquilo não correu bem porque ele, num certo momento, reconheceu-me e recuou nos seus propósitos.

 

Para se redimir o jovem explicou-se da seguinte maneira: - Sabe, senhor Mia, eu gostava muito de ser uma pessoa honesta, mas falta-me o patrocínio.

 

Não será exatamente o patrocínio que nos afasta da honestidade. O que nos falta é criar uma narrativa que prove que a honestidade vale a pena. Houve quem confundisse o combate contra a pobreza absoluta pelo combate pela ganância absoluta. Sugeriram-nos que a autoestima pode ser resolvida pela ostentação do luxo.

 

Uma certa narrativa quer ainda provar que vale a pena mentir, que vale a pena roubar, e que vale a pena tudo menos ser honesto e trabalhar. Aliás, a palavra “trabalho” suscita fortíssimas alergias. Podem-se ter negócios, podem-se ter projetos. Mas ter um trabalho isso é que nunca. Que o trabalho leva muito tempo e, além disso, dá muito trabalho. Mas, no fundo, todos sabemos: enriquecer rápido e sem esforço só pode ser feito de uma maneira: roubando, vigarizando, corrompendo e sendo corrompido. Não existe, no mundo, inteiro, uma outra receita.

 

Preocupa-nos que os nossos estudantes entrem para universidade com fraco desempenho acadêmico. Pois eu acho mais preocupante ainda que os nossos jovens cresçam sem referências morais.

 

Estamos empenhados em assuntos como o empreendedorismo como se todos os nossos filhos estivessem destinados a ser empresários. Ocupamos em cursos de liderança como se a próxima geração fosse toda destinada a criar políticos e líderes. Não vejo muito interesse em preparar os nossos filhos em serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo.

 

Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido...). Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações. E esse modelo está bem patente nos vídeo-clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem.

 

É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante, mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros. Histórias em que o herói não é o lambe-botas, nem o chico-esperto. Talvez essas histórias sejam o tal patrocínio que faltou ao nosso jovem funcionário.


Tudo isto é urgente e imperioso. Porque nós estamos na eminência de desacreditar de nós mesmos. Todos nós já escutamos de alguém a seguinte desistência: não vale a pena, nós somos assim. Nós somos cabritos à espera de ser amarrados num qualquer pasto. Estamos a aprender a desqualificarmo-nos. Estamos a replicar o racismo que outros inventaram para nos despromover como um povo de qualidade moral inferior.

E vou terminar partilhando um episódio real que foi vivido por colegas meus. Depois da Independência, um programa de controlo dos caudais dos rios foi instalado em Moçambique. Formulários foram distribuídos pelas estações hidrológicas espalhadas pelo país. A guerra de desestabilização eclodiu e esse projeto, como tantos outros, foi interrompido por mais de uma dúzia de anos. Quando a Paz se reinstalou, em 1992, as autoridades relançaram esse programa acreditando que, em todo o lado, era necessário recomeçar do zero. Contudo, uma surpresa esperava a brigada que visitou uma isolada estação higrométrica no interior da Zambézia. O velho guarda tinha-se mantido ativo e cumprira, com zelo diário, a sua missão durante todos aqueles anos. Esgotados os formulários, ele passou a usar as paredes da estação para registrar, a carvão, os dados hidrológicos. No interior e exterior, as paredes estavam cobertas de anotações e a velha casa parecia um imenso livro de pedra. Ao receber a brigada o velho guarda estava à porta a estação, com orgulho de quem cumpriu dia após dia: acabou-se o papel, disse ele, mas os meus dedos não acabaram. Este é o meu livro. E apontou para a casa. [...]”

 

 

Fontehttp://www.folhademaputo.co.mz/pt/noticias/nacional/aula-de-mia-couto-durante-a-cerimonia-doutor-honoris-causa-completa/

 

Imagens da Internet.

 

 

Sobre o autor - Mia Couto, pseudônimo de António Emílio Leite Couto, é um escritor e biólogo moçambicano. Nasceu em 5 de julho de 1955 – Beira, Moçambique. Mia Couto é um “escritor da terra”, escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a própria natureza humana na sua relação umbilical com a terra. A sua linguagem extremamente rica e muito fértil em neologismos, confere-lhe um atributo de singular percepção e interpretação da beleza interna das coisas. Cada palavra inventada como que adivinha a secreta natureza daquilo a que se refere, entende-se como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada em seu lugar. As imagens de Mia Couto evocam a intuição de mundos fantásticos e em certa medida um pouco surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve de uma ambiência terna e pacífica de sonhos – o mundo vivo das histórias. Mia Couto é um excelente contador de histórias. É o único escritor africano que é membro da Academia Brasileira de Letras, como sócio correspondente, eleito em 1998, sendo o sexto ocupante da cadeira nº 5, que tem por patrono Dom Francisco de Sousa.

In - http://www.miacouto.org/biografia-bibliografia-e-premiacoes/


 

OBSERVAÇÃO - texto postado neste Blog em 13/11/2017.   

 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Que é letramento? (Kate M Chong)




Letramento não é um gancho, em que se pendura cada enunciado,

Não é treinamento repetitivo de uma habilidade,

Nem um martelo quebrando blocos de gramática.

 

Letramento é diversão.

É leitura à luz de vela.

Ou lá fora, à luz do sol.

 

São notícias sobre o presidente,

O tempo, os artistas da tv

E mesmo Mônica e Cebolinha nos jornais de domingo.

 

É uma receita de biscoito,

Uma lista de compras, recados colados na geladeira,

Um bilhete de amor,

Telegrama de parabéns e cartas de velhos amigos.

 

É viajar para países desconhecidos,

Sem deixar sua cama,

É rir e chorar com personagens, heróis e grandes amigos.

 

É um atlas do mundo, sinais de trânsito, caças ao tesouro,

Manuais, instruções, guias,

E orientações em bulas de remédios,

Para que você não fique perdido.

 

Letramento é sobretudo, um mapa do coração do homem,

Um mapa de quem você é,

E de tudo o que você pode ser.


Sobre a autora - Kate M. Chong, norte-americana de origem asiática. escreveu o poema "Que é Letramento" em 1996.








domingo, 2 de janeiro de 2022

Mensagem de Feliz Natal (Padre Fábio de Melo)

 

“Quero que minha árvore seja feita de silêncios. Silêncios que façam intuir felicidade, contentamento, sorrisos sinceros.

Neste Natal não quero mandar cartões. Tenho medo de frases prontas. Elas representam obrigação sendo cumprida. Prefiro a gratuidade do gesto, o improviso do texto, o erro de grafia e o acerto do sentimento.

Neste Natal quero descansar de meus inúmeros planos. Quero a simplicidade que me faça voltar às minhas origens. Não quero muitas luzes. Quero apenas o direito de encontrar o caminho do presépio para que eu não perca o menino Jesus de vista.

Quero um natal sem Papai Noel. Papai Noel faz muito barulho quando chega. Ele acorda o menino Jesus, o faz chorar assustado. Os pastores não. Eles chegam silenciosos. São discretos e não incomodam…Os presentes que trazem nos recordam a divindade do menino que nasceu. São presentes que nos reúnem em torno de uma felicidade única.

Quero dividir com Maria os cuidados com o pequeno menino. Quero cuidar dele por ela. Enquanto eu cuido dele, ela pode descansar um pouquinho ao lado de José.

Descubram a beleza que as dispersões deste tempo insistem em esconder. Fechem as suas chaminés. Visita que verdadeiramente vale à pena chega é pela porta da frente.

Na noite de Natal fujam dos tumultos e dos barulhos. Descubram a felicidade silenciosa. Ela é discreta, mas existe! Eu lhes garanto! Não tenham a ilusão de que seu Natal será triste porque será pobre. Há mais beleza na pobreza verdadeira e assumida que na riqueza disfarçada e incoerente.

E não se surpreendam, se com isso, a sua noite de Natal tornar-se inesquecível.”

 

Padre Fábio de Melo - (Mensagem de Feliz Natal/2018)


Sobre o Autor -  Fábio José de Melo Silva, mais conhecido como Padre Fábio de Melo, é um sacerdote
católico, artista, escritor, professor universitário e apresentador brasileiro. Pertenceu à Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus. Atua na Diocese de Taubaté, no interior do Estado de São Paulo. Nascimento -3 de abril de 1971 - Formiga, Minas Gerais.


Fonte: https://portalkairos.org/tag/mensagem-de-natal-padre-fabio-de-melo/#ixzz7F9W6dyPs