terça-feira, 25 de outubro de 2022

A mulher invisível (Nicole Johnson )

 

Nicole Johnson é uma autora e palestrante motivacional que reuniu lições e experiências de mulheres em toda a América e ao redor do mundo, conectado-as com as suas, e as transformou em uma filosofia de mudança de vida extraordinária. Com sua capacidade única de misturar humor com compaixão, ela conseguiu captar os sentimentos mais profundos de mulheres que enfrentam lutas diárias.

 

Tudo foi acontecendo aos poucos. Eu falava e ninguém ouvia. Eu dizia: -

Desliguem a TV, por favor! E... Nada. Então eu gritava: Desliguem a TV! E

depois de repetir várias vezes, eu mesma tinha que desligá-la.

Eu percebi isso em outras situações. Meu marido e eu estávamos numa festa há

horas. E eu já estava pronta para ir embora. Eu fui saindo. Ele estava

conversando com um amigo e... Continuou conversando! Ele nem se virou!

Foi, então, que eu percebi: Ele não consegue me ver. Eu sou INVISÍVEL! Eu sou

INVISÍVEL!

 

Eu fui notando cada vez mais. Eu levava meu filho para a escola e a professora

perguntava: Jack, quem é essa com você? E ele dizia: Ninguém! Ele só tem 5

anos e eu já sou: Ninguém!

 

Numa noite dessas, nosso círculo de amizades se reuniu celebrando a volta de

uma amiga da Inglaterra. Janice contava tudo sobre a viagem e eu olhava as

outras mulheres na mesa.

 

Eu tinha me maquiado no carro, usava um vestido qualquer, e meu cabelo sujo

estava com um prendedor velho. Estava me sentindo ridícula. Janice veio até

mim e disse: Eu te trouxe isto. Era um livro sobre as grandes catedrais da Europa.

Eu não entendi até ler a dedicatória: "Com admiração por tudo de bom que você

constrói e ninguém vê." Ao chegar em casa comecei a folhear e ler os textos...

Não se sabem os nomes de quem construiu as grandes catedrais. Você procura,

mas só acha: Construtor desconhecido... Desconhecido... Desconhecido... Eles

completaram obras sem saber se jamais seriam reconhecidos.

 

Há uma história sobre um dos construtores que estava esculpindo um passarinho

que seria coberto por um telhado. Alguém lhe disse: Por que gastar tanto tempo

fazendo algo que ninguém verá? E no livro diz que ele respondeu: "Por que?

Porque Deus vê!"

 

Eles acreditavam, eles sabiam que Deus vê tudo. Deram sua vida por obras que

nunca viram concluídas! Algumas catedrais levaram mais de 100 anos para

ficarem prontas. Isso é muito mais que a vida útil de um trabalhador.

Sacrificaram-se dia após dia para não terem qualquer reconhecimento. Numa

obra que não veriam concluída. Um dos escritores chega a dizer que nenhuma

grande catedral será novamente erguida, porque há pouquíssimas pessoas

dispostas a tanto sacrifício.

 

Eu fechei o livro... e meditei... era como se Deus me dissesse: "Eu te vejo."

Você não é invisível para mim! Nenhum sacrifício é tão pequeno que eu não

veja. Eu sorrio ao ver cada bolo que você faz, cada botão pregado... Vejo cada

lágrima de decepção quando as coisas vão mal. Mas lembre-se: Você está

construindo uma catedral! Ela não ficará pronta durante a sua vida. E,

infelizmente, você nunca entrará nela. Mas se você construí-la bem, Eu entrarei!

Às vezes a invisibilidade me afligia. Mas entendi que ela não é a doença que

apaga a minha vida. Ela é a cura para a doença do egocentrismo. É antídoto para

o meu orgulho. Não importa se os outros não me vêem. Não importa se meu filho

disser a um amigo que for lá em casa: Você não vai acreditar no que a minha mãe

faz: Ela acorda às quatro da manhã, cozinha, passa a roupa... Ainda que eu faça

tudo isso... eu quero que meu filho se sinta feliz ao voltar pra casa. E diga ao seu

amiguinho: Você vai adorar ir lá em casa.

 

Não importa se os outros não me vêem, não trabalhamos para as pessoas,

trabalhamos para Deus. Sacrificamo-nos por Ele. Os outros nunca prestarão

atenção, por melhor que trabalhemos. Oremos para que o nosso trabalho fique

como um monumento para o nosso Deus!

 Video - https://youtu.be/vXceX7_Iq9A  

 


Sobre a Autora - 
Nicole Johnsonautora de best-sellings e palestrante motivacional faz uma analogia neste vídeo em relação ao fato de mulheres serem na maior parte do tempo invisíveis.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

O Caminho da Vida (Charles Chaplin)


O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.

A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios.

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.

Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.

Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.


Nota: Trecho do discurso final do filme de Charles Chaplin "O Grande Ditador" (1940).

Sobre o Autor - Charles Spencer Chaplin, Jr., mais conhecido pelo nome artístico, 
Charlie Chaplin, foi um ator, comediante, diretor, compositor, roteirista, cineasta, editor e músico britânico. Chaplin foi um dos atores da era do cinema mudo, notabilizado pelo uso de mímica e da comédia pastelão.


Nascimento: 16 de abril de 1889, Londres, Reino Unido

Falecimento: 25 de dezembro de 1977, Manoir de Ban, Suíça. 

Filhos: Geraldine Chaplin, Charles Chaplin, Jr., Victoria Chaplin.

Cônjuge: Oona O'Neill (de 1943 a 1977



quinta-feira, 29 de setembro de 2022

O que é letramento e alfabetização (Magda Becker Soares)



Neste texto, vamos discutir conceitos e, portanto, palavras, ou, se quiserem, vamos discutir palavras e, portanto, conceitos: os conceitos alfabetização e letramento, as palavras alfabetização e letramento. 

Em um primeiro momento, gostaria de fazer um "passeio" pelo campo semântico em que se inserem essas palavras, esses conceitos. São palavras de uso comum, conhecidas, exceto talvez letramento, palavra ainda desconhecida ou mal entendida, ou ainda não plenamente compreendida pela maioria das pessoas, porque é palavra que entrou na nossa língua há muito pouco tempo. 

ALFABETIZAÇÃO - ALFABETIZAR  - ALFABETIZADO - ANALFABETISMO - ANALFABETO LETRAMENTO - LETRADO - ILETRADO - ALFABETISMO 

Não precisamos definir essas palavras, porque estamos familiarizados com elas, talvez com exceção apenas da palavra letramento. Mas vou me deter nelas para conduzir nossa reflexão em direção ao sentido de letramento. 

Vejamos as definições que aparecem no dicionário Aurélio: 

analfabetismo: estado ou condição de analfabeto a(n) + alfabet + ismo a- : prefixo grego (acrescenta-se um -n- quando a palavra a que é adicionado começa com vogal) indica: privação, falta de. 

Exemplos: acéfalo: sem cabeça, sem cérebro; amoral: privado de moral. - ismo sufixo, indica: modo de proceder, de pensar. 

Exemplos: heroísmo: procedimento de herói; servilismo: procedimento servil. analfabeto: que não conhece o alfabeto; que não sabe ler e escrever a(n) + alfabeto Nas palavras analfabetismo e analfabeto aparece o prefixo a(n)-: 

Analfabeto é aquele que é privado do alfabeto, a que falta o alfabeto, ou seja, aquele que não conhece o alfabeto, que não sabe ler e escrever. (Ao pé da letra, significa aquele que não sabe nem o alfa, nem o beta - alfa e beta são as primeiras letras do alfabeto grego; em outras palavras: aquele que não sabe o bê-a-bá.) 

Em analfabetismo,o substantivo, aparece ainda o sufixo -ismo: a palavra significa um modo de proceder como analfabeto, ou seja: analfabetismo é um estado, uma condição, o modo de proceder daquele que é analfabeto. alfabetizar: ensinar a ler e a escrever alfabet + izar - izar: sufixo, indica: tornar, fazer com que. 

Exemplos: suavizar: tornar suave; industrializar: tornar industrial Alfabetizar é tornar o indivíduo capaz de ler e escrever. Alfabetização: ação de alfabetizar Alfabet + iza(r) + ção - ção: sufixo que forma substantivos indica: ação 

Exemplos: traição: ação de trair nomeação: ação de nomear Alfabetização é a ação de alfabetizar, de tornar "alfabeto". Causa estranheza o uso dessa palavra "alfabeto", na expressão "tornar alfabeto". É que dispomos da palavra analfabeto, mas não temos o contrário dela: temos a palavra negativa, mas não temos a palavra positiva. É no campo semântico dessas palavras que conhecemos bem - analfabetismo, analfabeto, alfabetização, alfabetizar - que surge a palavra letramento. 

Como surgiu essa palavra e o que quer ela dizer? LETRAMENTO? Conhecemos as palavras letrado e iletrado: Letrado: versado em letras, erudito iletrado: que não tem conhecimentos literários uma pessoa letrada = uma pessoa erudita, versada em letras (letras significando literatura, línguas) uma pessoa iletrada = uma pessoa que não tem conhecimentos literários, que não é erudita; analfabeta, ou quase analfabeta. 

O sentido que temos atribuído aos adjetivos letrado e iletrado não está relacionado com o sentido da palavra letramento. A palavra letramento ainda não está dicionarizada, porque foi introduzida muito recentemente na língua portuguesa, tanto que quase podemos datar com precisão sua entrada na nossa língua, identificar quando e onde essa palavra foi usada pela primeira vez. 

Parece que a palavra letramento apareceu pela primeira vez no livro de Mary Kato: No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística, de 1986. 

A palavra letramento não é, como se vê, definida pela autora e, depois dessa referência, é usada várias vezes no livro; foi, provavelmente, essa a primeira vez que a palavra letramento apareceu na língua portuguesa - 1986. 

Depois da referência de Mary Kato, em 1986, a palavra letramento aparece em 1988, no livro que, pode-se dizer, lançou a palavra no mundo da educação, dedica páginas à definição de letramento e busca distinguir letramento de alfabetização: é o livro Adultos não alfabetizados - o avesso do avesso, de Leda Verdiani Tfouni (São Paulo, Pontes, 1988, Coleção Linguagem/Perspectivas) um estudo sobre o modo de falar e de pensar de adultos analfabetos. Mais recentemente, a palavra tornou-se bastante corrente, aparecendo até mesmo em título de livros, por exemplo: Os significados do letramento, coletânea de textos organizada por Ângela Kleiman, (Campinas, Mercado das Letras, 1995) e Alfabetização e letramento, da mesma Leda Verdiani Tfouni, anteriormente mencionada (São Paulo, Cortez, 1995, Coleção Questões de nossa época). 

Na busca de esclarecer o que seja letramento, talvez seja interessante refletirmos sobre o seguinte: vivemos séculos sem precisar da palavra letramento; a partir dos anos 80, começamos a precisar dessa palavra, inventamos essa palavra - por quê, para quê?

TEXTO COMPLETOO que é letramento e alfabetização.doc.pdf 

https://pibidletrasunifra.webnode.com.br/news/oqueeletramentoealfabetizaçao/magdabeckersoares



AUTORA - Magda Becker Soares (Belo Horizonte). 7 de setembro de 1932) é professora titular emérita da Faculdade de Educação da UFMG. Pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita – Ceale – da Faculdade de Educação da UFMG. Graduada em Letras, doutora e livre-docente em Educação. É autora de diversos livros, e especialmente conhecida por seus livros didáticos de Língua portuguesa usados dos anos 1970 a 1990.




terça-feira, 13 de setembro de 2022

Alfabetização e educação infantil: Relações delicadas (Parte2)


Brincar ou alfabetizar?


Essa é outra pergunta mal formulada e pressupõe imediatamente uma exclusão desnecessária. As posições antagônicas não ajudam a avançar nem a brincadeira nem o conhecimento da língua escrita. Nas sociedades urbanas as crianças brincam incorporando ações dos adultos, que incluem também eventos onde ler e escrever fazem sentido. Quando se proíbe que o educador desenvolva atividades de leitura e escrita em uma concepção que respeita o processo de construção de conhecimentos da criança, abre-se caminho para que as práticas equivocadas de alfabetização apareçam, ainda que disfarçadas, quando o controle das equipes dirigentes não é efetivo.

Crianças pequenas devem brincar muito na educação infantil, mas também precisam ter contatos sistemáticos com leitura e escrita. A isso chamamos alfabetizar em um contexto amplo, muito diferente de fazer exercícios de coordenação motora, aprender letras isoladas, copiar sílabas ou palavras “fáceis”. Essas práticas nefastas persistem e continuarão presentes na educação infantil enquanto a discussão sobre os processos de alfabetização não for levada a efeito com seriedade e concretude.

Alfabetizar para incluir
É curioso notar que a despeito das melhores intenções, muitas vezes a pretexto de proteger a cultura da infância, se nega às crianças o direito de se relacionar na plenitude com a língua materna. Cria-se, na educação infantil, um ambiente estéril de onde a língua escrita é quase banida. E são as crianças de baixa renda as maiores prejudicadas por esse afastamento. Se para a criança dominar a linguagem escrita, tal como se manifesta no mundo – é preciso percorrer um longo processo de reflexão e reformulação de hipóteses próprias para compreender o que é essa escrita, para que serve e como funciona – o acesso cotidiano é fundamental.

Temos assim não só um problema pedagógico, mas também ético e político. Podemos negar às crianças de baixa renda o acesso? É sobre isso que a escola de educação infantil deve pensar. Telma Weisz3, doutora em psicologia da educação, dedicando-se há anos à causa da alfabetização, questiona: Será que temos, novamente, mais um argumento para provar sua inferioridade (das crianças pobres)? Vejamos, então, o que se passa. Para uma criança caminhar em seu processo de alfabetização, ela precisa pensar sobre a escrita. E para isso precisa entrar em contato com esta. Esse contato implica tanto o acesso aos portadores de textos como a atos reais de leitura e de escrita. Uma família de classe média compra livros de história e revistas em quadrinhos para seus filhos ainda não alfabetizados, frequentemente lê para eles e realiza cotidianamente uma quantidade enorme de atos de leitura e escrita que permitem à criança pensar sobre para que serve a escrita e todas as possibilidades que ela abre. As famílias de classe média ensinam seus filhos pequenos a escrever o próprio nome e o das outras pessoas da casa sem nenhuma preocupação escolar.

Apenas porque as crianças se mostram interessadas. E essas se mostram interessadas porque o ato de escrever (ou ler) é visivelmente importante no meio em que elas vivem. Não é de se estranhar que sejam essas as crianças que têm bom desempenho na escola, elas já entram praticamente alfabetizadas. Não é também de se estranhar que as crianças que vêm de comunidades onde o jornal serve para tudo, menos para ler, onde a leitura e a escrita quase não fazem parte do cotidiano, onde os informantes são raros e inseguros, tenham hipóteses primitivas sobre a escrita. Não é possível pensar sobre um objeto ausente. Essas considerações, longe de encerrar o debate, abrem caminho para que se compreenda a questão da alfabetização na pré-escola sem preconceitos e com responsabilidade.

Leve você também esse debate para sua escola e participe desta seção enviando sua opinião, dúvidas e exemplos de trabalho que se alinham com essa concepção. E veja a seguir um exemplo de como a alfabetização pode respeitar o jeito como as crianças pensam.
(Ana Lucia Bresciane, formadora do Instituto Avisa Lá)
3Revendo a Função Pedagógica da Pré-escola, in Caderno Idéias FDE, no 2, 1988.

FONTE - https://avisala.org.br/index.php/conteudo-por-edicoes/revista-avisala-17/alfabetizacao-e-educacao-infantil-relacoes-delicadas. Postado em  22/01/2004.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #17 de janeiro de 2004. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Alfabetização e educação infantil: Relações delicadas (Parte 1)

 

Pode-se dizer que essa questão é um dos grandes dilemas da educação infantil. Entre os que defendem a alfabetização inicial há diferentes posições e entre os que são contra também as opiniões divergem. O professor premido por concepções conflitantes, pela pressão das famílias, pela ação das crianças, sempre que pode quer refletir sobre o assunto

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Isso foi o que aconteceu com um grupo de professoras da rede municipal de Caieiras, que tendo participado de um curso ministrado pela formadora Ana Lucia, trouxe a questão da alfabetização na educação infantil para o centro do debate. Ela recebeu uma pergunta aparentemente simples: O que você acha de alfabetizar na educação infantil? Por trás dessa legítima demanda dos professores há uma complexa rede de concepções a serem analisadas, que vão desde o que é ser criança hoje, a função social da educação infantil, o ensino e a aprendizagem e evidentemente de que alfabetização falamos. As respostas em geral não dão conta de esgotar todo o assunto. E é sempre importante ampliar o debate.

A criança e a cultura letrada
Para a formadora Ana Lucia, a resposta para essa pergunta está no próprio contexto em que a criança vive: Em nossa sociedade as crianças estão desde cedo em contato com a língua escrita e logo se interessam por ela, pela sua função social e querem saber sobre o seu funcionamento. Quanto mais contato, maior o interesse e a curiosidade. O longo processo de alfabetização se beneficia muito com a aproximação das crianças ao mundo letrado. O papel da escola é fazer valer o direito que todos têm de fazer parte desse universo, inclusive as crianças pequenas. Principalmente as escolas que atendem crianças de baixa renda, precisam planejar com cuidado um contato prazeroso e eficiente com a escrita. Além dessa perspectiva social, Ana Lucia também se apoia nas contribuições trazidas pelo pensamento de Vigotsky: Concordo com a perspectiva de Vigotsky, quando ele diz que a instrução é válida quando precede ao desenvolvimento, ou seja, não faz sentido a escola esperar o “momento ideal” para começar a ensinar a ler e escrever.

Sabemos que esse é um processo contínuo e que nele podem estar incluídos desafios possíveis e prazerosos para a criança e que por meio da superação desses desafios é que ela se desenvolve e pode avançar ainda mais em seus conhecimentos e competências. É plenamente justificável que a escrita seja objeto da atenção dos educadores: a concepção de escrita de Vigotsky, associada ao sistema simbólico de representação da realidade, está ligada ao próprio núcleo de sua teoria da linguagem, trazendo questões fundamentais como a da mediação simbólica. Sobre isso, Marta Kohl, estudiosa do pensamento de Vigotsky, afirma: Como a escrita é uma função culturalmente mediadora, a criança que se desenvolve numa cultura letrada está exposta aos diversos usos da linguagem escrita e a seu formato, tendo diferentes concepções a respeito desse objeto cultural ao longo de seu desenvolvimento. A principal condição necessária para que uma criança seja capaz de compreender adequadamente o funcionamento da língua escrita é que descubra que a língua escrita é um sistema de signos que não têm significados em si. Os signos representam outra realidade; isto é, o que se escreve tem uma função instrumental, funciona como um suporte para a memória e a transmissão de ideias e conceito1.

A criança que vive em uma cultura letrada – pois não estamos tratando aqui das populações indígenas, por exemplo, provenientes de comunidades ágrafas – tem a possibilidade de vivenciar um processo de alfabetização favorecido pelo contato com o meio. E isso não se dá de modo espontâneo e natural mas incentivado por um informante mais experiente, um adulto ou mesmo outra criança. Para tanto, deverá conhecer e se apropriar desde cedo dos usos da língua escrita presente em seu mundo.

Alfabetizar ou não, uma pergunta mal formulada
Emília Ferreiro, embora tenha sido influenciada por Piaget, traz em sua Psicogênese da Língua Escrita ideias que também se justificam segundo o pensamento de Vigotsky e de Luria. Ambos entendem que a escrita é um sistema de representação da realidade e concordam que a alfabetização é resultado de um domínio progressivo desse sistema, que não se resume à conquista de habilidades meramente mecânicas e/ou visuais. Por isso pode se iniciar muito antes do ingresso na escola de ensino fundamental2. As ideias desenvolvidas por Ferreiro também justificam a presença de um ambiente alfabetizador, desde cedo. Para ela a pergunta que envolve sim ou não está muito mal formulada: O que digo é que a pergunta está malfeita, porque pressupõe que a resposta NÃO equivale a deixar essa responsabilidade para o Ensino Fundamental, e a resposta SIM pressupõe introduzir na pré-escola as más práticas tradicionais do Ensino Fundamental.

O que proponho é substituir a pergunta centrada no ensino por outra centrada na aprendizagem: Deve-se permitir ou não que as crianças aprendam sobre a língua escrita na pré-escola? Nesse caso, a resposta é redondamente afirmativa. E a justificativa para sua afirmativa, para a defesa da presença da cultura escrita desde cedo, ainda na educação infantil, é bastante esclarecedora: a simples presença do objeto não garante conhecimento, mas a ausência do objeto garante o desconhecimento. Se eu quero que a criança comece a construir conhecimento sobre a língua escrita, esta tem de existir. Se eu a proíbo, garanto que a criança não possa se fazer perguntas sobre esse objeto porque eu o fiz desaparecer dentro da sala de aula. Se proíbo a língua escrita, crio um ambiente escolar no qual a escrita não tem nenhum lugar, ao passo que no ambiente urbano a escrita tem seu lugar; imponho que as educadoras funcionem com se não fossem pessoas alfabetizadas. Em outras palavras, crio uma situação anômala.

Deve-se, então, permitir que a criança pense sobre a linguagem escrita na escola de educação infantil. E para isso ela tem que estar presente. Trata-se, pois, de pensar de que forma é possível apresentá-la respeitando a cultura da infância, propondo situações onde ler e escrever tenha sentido para as crianças e faça parte da vida cotidiana.

Autora - (Ana Lucia Bresciane, formadora do Instituto Avisa Lá)

1Marta Kohl de Oliveira. Vigotsky – aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-histórico, Pág. 68. Ed. Scipione.Tel.: (11) 3241-2255. Site: www.scipione.com.br , e-mail: centraldeatendimento@scipione.com.br.

2Para saber mais sobre as relações entre Vigotsky, Luria e Ferreiro, leia: Acesso ao mundo da escrita: Os caminhos paralelos de Luria e Ferreiro. Maria Tereza Fraga Rocco. Cadernos de Pesquisa, 75: 25-33. – Fundação Carlos Chagas.Tel: (11) 3723-3000. Site: www.fcc.org.br

FONTE - https://avisala.org.br/index.php/conteudo-por-edicoes/revista-avisala-17/alfabetizacao-e-educacao-infantil-relacoes-delicadas. Postado em  22/01/2004.


"Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #17 de janeiro de 2004. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br"

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Algumas considerações: Alfabetização e Letramento.

 

“ (...) a grande diferença entre alfabetização e letramento, entre alfabetizado e letrado:

Um indivíduo alfabetizado não é necessariamente um indivíduo letrado;

Alfabetizado é aquele indivíduo que sabe ler e escrever; já o indivíduo letrado, o indivíduo que vive em estado de letramento, é não só aquele que sabe ler e escrever, mas aquele que usa socialmente a leitura e a escrita, pratica a leitura e a escrita, responde adequadamente às demandas sociais de leitura e de escrita.

(...)  letramento é muito mais que alfabetização. (...) letramento é um estado, uma condição: o estado ou condição de quem interage com diferentes portadores de leitura e de escrita, com diferentes gêneros e tipos de leitura e de escrita, com as diferentes funções que a leitura e a escrita desempenham na nossa vida.

Letramento é o estado ou condição de quem se envolve nas numerosas e variadas práticas sociais de leitura e de escrita".

 

"Por que surgiu a palavra letramento?

A palavra analfabetismo nos é familiar, usamos essa palavra há séculos, ela já está presente em textos do tempo em que éramos Colônia de Portugal. É um fenômeno interessante: usamos, há séculos, o substantivo que nega ( a(n) + alfabetismo = privação de alfabetismo), e não sentíamos necessidade do substantivo que afirmasse: alfabetismo ou letramento. Por que só agora, no fim do século XX, a palavra letramento se tornou necessária?

Palavras novas aparecem quando novas ideias ou novos fenômenos surgem. Convivemos com o fato de existirem pessoas que não sabem ler e escrever, pessoas analfabetas, desde o Brasil Colônia, e ao longo dos séculos temos enfrentado o problema de alfabetizar, de ensinar as pessoas a ler e escrever; portanto: o fenômeno do estado ou condição de analfabeto nós o tínhamos (e ainda temos...), e por isso sempre tivemos um nome para ele: analfabetismo.

À medida que o analfabetismo vai sendo superado, que um número cada vez maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e à medida que, concomitantemente, a sociedade vai se tornando cada vez mais centrada na escrita (cada vez mais grafocêntrica), um novo fenômeno se evidencia: não basta apenas aprender a ler e a escrever. As pessoas se alfabetizam, aprendem a ler e a escrever, mas não necessariamente incorporam a prática da leitura e da escrita, não necessariamente adquirem competência para usar a leitura e a escrita, para envolver-se com as práticas sociais de escrita: não leem livros, jornais, revistas, não sabem redigir um ofício, um requerimento, uma declaração, não sabem preencher um formulário, sentem dificuldade para escrever um simples telegrama, uma carta, não conseguem encontrar informações num catálogo telefônico, num contrato de trabalho, numa conta de luz, numa bula de remédio... 

Esse novo fenômeno só ganha visibilidade depois que é minimamente resolvido o problema do analfabetismo e que o desenvolvimento social, cultural, econômico e político traz novas, intensas e variadas práticas de leitura e e de escrita, fazendo emergirem novas necessidades, além de novas alternativas de lazer. Aflorando o novo fenômeno, foi preciso dar um nome a ele: quando uma nova palavra surge na língua, é que um novo fenômeno surgiu e teve de ser nomeado. Por isso, e para nomear esse novo fenômeno, surgiu a palavra letramento".

 "Compreendido o que é letramento, por que surgiu a palavra letramento, qual a origem da palavra letramento, pode-se voltar à diferença entre letramento e alfabetização:

Alfabetização = ação de ensinar/aprender a ler e a escrever

Letramento = estado ou condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a escrita.

  • cultiva = dedica-se a atividades de leitura e escrita
  • exerce = responde às demandas sociais de leitura e escrita

Precisaríamos de um verbo "letrar" para nomear a ação de levar os indivíduos ao letramento... Assim, teríamos alfabetizar e letrar como duas ações distintas, mas não inseparáveis, ao contrário: o ideal seria alfabetizar letrando, ou seja: ensinar a ler e a escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se tornasse, ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado".

 


FONTE -  Trechos do texto O que é letramento e alfabetização de Magda Becker Soares. Janeiro/99.  In: http://smeduquedecaxias.rj.gov.br/nead/Biblioteca/FormaçãoContinuada/ArtigosDiversos/oque e letramentoealfabetiza.pdf


Sobre a Autora: Magda Becker Soares professora titular emérita da Faculdade de Educação da UFMG. Pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita – Ceale – da Faculdade de Educação da UFMG. Graduada em Letras, doutora e livre-docente em Educação. Nascimento: 7 de setembro de 1932 , Belo Horizonte, Minas Gerais.

sábado, 30 de julho de 2022

DO MEU CORAÇÃO PARA O SEU - (Américo J C Peixoto)

 
 

PERFIL DE UMA VERDADEIRA FACILITADORA DE APRENDIZAGENS

 

Querida mestra,

Como vai?

Dirijo-me a você, carinhosamente, talvez sem lhe conhecer. É que temos um amor em comum, quando olhamos na mesma direção... trabalhamos com crianças.

Esquecidos da profissão que os diplomas nos conferem, ou das atribuições que os contratos nos impõem, conversaremos sobre a missão de cada um de nós, já que con+versar é falar de nossos sentimentos e, missão vem do coração.

De minha parte, digo-lhe: a missão brotou quando descobri que me juntando às crianças de fora', eu poderia resgatar a minha 'criança de dentro'... Fui órfão de pais vivos; embora os meus tenham morrido octogenários, jamais morei com eles. Minha juventude, também se sufocou nos rigores de um internato religioso.

E, com você como terá sido?!

Fico imaginando... Quem sabe, terá caído nesse 'mundo das crianças' só para não desperdiçar a primeira chance que o mercado competidor lhe proporcionou?

Ou, ao contrário, quando de sua infância feliz, por acaso, já não contava histórias para suas bonequinhas, em escolas imaginárias? Ou chegou a dar aulas para as galinhas amontoadas no quintal? Seu cachorrinho, já seduzido, sentava com as orelhinhas em pé para lhe escutar as explicações?

Naquela época você nem havia escutado a palavra caris-ma, mas, ele já habitava em você... e agora?

Gostaria com este texto lhe estimular a fazer o melhor com o que sua infância terá lhe dado ou negado. Sartre diz-nos que é isto que importa.

Disponibilizo, em seguida, algumas pérolas que recolhi ao longo de três décadas dedicadas à educação continuada, enquanto realizava um de meus sonhos: ser fio de náilon, invisível, mas que une contas, formando um colar para fazer acontecer, sem deixar nenhuma sozinha se perder.

Agradeço a acolhida que deu a esses meus toques, esperando, em breve, receber seus retoques.

Um abraço amigo.

 


A seguir, algumas características sugeridas como integrantes do perfil de uma verdadeira facilitadora de descobertas e aprendizagens.

 

PAIXÃO

pelas crianças é a primeira garantia de êxito para quem desejar empreender algo em favor delas. Pai (no chão), quer dizer jogar no chão toda a racionalidade e seguir o coração. Os apaixonados estarão sempre desejando interagir com seus amores. Se alguém, ao lhe falar de crianças perceber que você tem brilho nos olhos, cuide-se... ele saberá que você é apaixonada por elas.

 

CLAREZA DE VALORES,

é fundamental à sua decisão de trabalhar com crianças. No mercado prevalente das cifras, seu contracheque dificilmente fará sucesso. Mas, na escala de valores de sua escolha você descobrirá que aquilo que significar para as crianças, valerá mais do que tudo que lhes possa dar.

 

EXPRESSÃO DO AFETO

Torna-se indispensável para algumas pessoas, aprender a expressar fisicamente o afeto que nutrem pelas crianças. O poder do toque é inestimável. Um simples abraço ou um ligeiro produzem mais resultado que um discurso ensaiado. Lembre-se: sensibilizou, é igual a faturou; muito explicou, complicou.

 

PERCEPÇÃO,

quer dizer: sacar, cair a ficha ou o chip. Prefira a lucidez à inteligência. Um gênio míope renderá poucos dividendos... Ao ser interrogada por uma criança, sintonize-se em AM, ouvindo apenas as palavras ditas. Mas, não esqueça de fazê-lo também em FM, que lhe revelará, na verdade, o que ela deseja. Quando lhe perguntar: "você vai sair agora"? O que ela de fato, quer saber, é se demorará a livrar-se de você, para fazer o que quiser...

 

COMUNICAÇÃO

Chorar é a elementar forma de comunicação da criança. É a expressão máxima de dor ou de amor. Depois aprenderá a ouvir e falar, nesta ordem. Logo, para ensiná-la a ouvir é indispensável que se fale com ela adequadamente. Para tanto, considere que seus cinco sentidos funcionam conjuntamente. Para sermos bem ouvidos e ela aprender a falar, teremos que nos aproximar dela e falar-lhe 'olhos nos olhos', além de tocá-la. O motor da inteligência é o afeto.

 

CRESCER SEMPRE,

isto é, não parar de aprender, que por sua vez significa não parar de mudar. Diplomas são como os perecíveis, tornam-se vencidos. Então, é necessário manter-se atualizada. Não pare de estudar. Mas, se isto não for possível, leia livros e revistas e ao fazê-lo, saboreie mais as entrelinhas do que as próprias linhas. Todavia, se isto também for inviável, troque ideias com colegas mais experientes. Einstein adverte que há três grupos de pessoas: as que falam de obviedades, outras que falam dos outros e, finalmente, as que falam de ideias. Saiba escolher.

 

"CRIANÇA DEVE SER SACADA, COMPREENDIDA E CORRESPONDIDA"

 

A CRIANÇA E O AMOR

 Durante uma aula a professora pediu para que as crianças buscassem no pátio da escola algo que pudesse representar o amor. Após o recreio, as crianças apresentaram seus símbolos. A primeiro apresentou uma flor e disse: - Professora, eu trouxe uma flor. Sinta seu cheiro. Como é perfumada! Assim é o amor! A seguinte trouxe uma borboleta e disse: - Professora, aqui está uma borboleta. Veja que lindo o colorido de suas asas. Vou colocá-la na minha coleção. A terceira, tinha um filhote de passarinho em suas mãos. E disse: - Olhe como é pequeno e delicado. Achei ele caído no pátio da escola.

Enquanto as crianças apresentavam seus símbolos, a professora notou uma, bem quietinha no fundo da sala, sem nada em suas mãos, e lhe perguntou: - O que você trouxe? - Professora, eu vi a flor e quis pegá-la, mas deixei lá para que continuasse a perfumar o lugar. Vi a borboleta, mas não tive coragem de lhe tirar a liberdade. Vi o filhote de passarinho, pensei em pegá-lo, mas vi o olhar triste da mãe e lhe devolvi o filhotinho. Então, posso lhe dizer que trago o perfume da flor, a liberdade da borboleta e a gratidão da mãe do passarinho.

A professora emocionada agradeceu e disse que o amor só poderia ser trazido verdadeiramente de dentro do coração.


Fonte -  In: Toques & retoques: inflexões em psicopedagogia / Américo J C Peixoto. Editora Paka-Tatu, 2021. Belém-PA. Pp 75-79.

Imagens da internet.

Sobre o Autor - Américo José de Castro Peixoto, nasceu em Manaus-AM, em 1938, casado, estudou Filosofia, Pedagogia e Psicopedagogia.  É Bacharel em "Ciência da Educação" e pós-graduado em "Educação Inovadora, com Habilitação em Ensino Superior". Exerceu Magistério Superior e diversas funções de direção em órgãos públicos e privados. Há trinta anos, fundou o Núcleo de Estimulação da Criança-NECTAR, em Brasília, passando a dedicar-se, com exclusividade, ao atendimento psicopedagógico. Entre suas publicações impressas destacam-se: "Declaração de Compromisso do Professor para Ingressar no III Milênio" e "Caderneta de Poupança Emocional". Atualmente reside em Belém.  e-mail: ajpeixoto@uol.com.br  

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Amizade (Rubem Alves)

Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão...


O encontro acontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira. A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre.

Pela primeira vez, estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro.

“Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu coração cantava ‘Tenho um amigo, tenho um amigo!’ Nada via. Nada ouvia. Não pensava em mais nada. Estava morto de sono e adormeceu apenas deitou-se. Mas durante a noite foi acordado duas ou três vezes, como que por uma ideia fixa. Repetia para si mesmo: ‘Tenho um amigo’, e tornava a adormecer.”

Jean-Christophe compreendera a essência da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem. Se o silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se põe a procurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou tramar. Até que tudo isso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, terminado o alegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio - que são insuportáveis. Nesse momento, o outro se transforma num incômodo que entulha o espaço e cuja despedida se espera com ansiedade.

Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria independentemente do que se faça ou diga. A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas.


Uma estória oriental conta
de uma árvore solitária que se via no alto da montanha. Não tinha sido sempre assim. Em tempos passados, a montanha estivera coberta de árvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela árvore era torta, não podia ser transformada em tábuas. Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. Depois vieram os caçadores de essências em busca de madeiras perfumadas. Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam.

Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo sabemos que não estamos sós. E alegria maior não pode existir.


Fonte - https://institutorubemalves.org.br/ Originalmente publicado no jornal Correio Popular, 1991/1992.
Grifo feitos por mim.

Sobre o Autor -  Rubem Alves (1933-2014) foi teólogo, pedagogo, poeta e filósofo brasileiro.