quarta-feira, 19 de abril de 2023

O último discurso de "O Grande Ditador" de Charles Chaplin(**)

 

(**) O primeiro filme falado de Charles Chaplin foi “The Great Dictator” (1940) (O Grande Ditador), lançado no dia 15 de outubro de 1940, o filme faz uma sátira ao nazismo e ao fascismo.

 

"Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. 

Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia ... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina!

Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos.

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos"


O último discurso de "O Grande Ditador" de Charles Chaplin

FONTE - https://www.pensador.com/textos_charles_chaplin/ 


Sobre o autor - Charles Chaplin (1889-1977) foi um ator, dançarino, diretor e produtor inglês. Também conhecido por "Carlitos". Foi o mais famoso artista cinematográfico da era do cinema mudo. Ficou notabilizado por suas mímicas e comédias do gênero pastelão.

O personagem  que mais marcou sua carreira foi "O Vagabundo" (The Tramp), um andarilho pobretão com as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro, vestido com um casaco esgarçado, calças e sapatos desgastados e mais largos que o seu número, um chapéu coco, uma bengala e seu marcante bigode.

Infância

Charles Spencer Chaplin Jr. nasceu em Londres, Inglaterra, no dia 16 de abril de 1889. Seu pai Charles Spencer Chaplin, era vocalista e ator e sua mãe Hannah Chaplin, era cantora e atriz. Seus pais se separam antes de Charles completar três anos. Em 1894 com apenas cinco anos Chaplin subiu ao palco e cantou a música "Jack Jones".

Seu pai era alcoólatra e tinha pouco contato com o filho. Morreu de cirrose hepática em 1901. Sua mãe foi internada em um asilo e Chaplin foi levado para um orfanato e depois transferido para uma escola de crianças pobres.

Primeiro Filme de Sucesso de Charles Chaplin

Em 1908, com 19 anos, Charles Chaplin começou a trabalhar no teatro de variedades fazendo sucesso como mímico. Em 1910, em uma turnê nos Estados Unidos com a trupe de Fred Karmo, foi visto por um produtor cinematográfico e, em 1913 já estreava como ator de cinema da Keystone Film Company.

No final de 1914, Chaplin foi contratado pela Essanay, recebendo um alto salário e sua própria unidade de produção. Em 1915, ele produziu a comédia “The Tramp” (O Vagabundo) quando criou o seu famoso personagem – "o vagabundo Carlitos".

O Vagabundo - 1915

Carlitos era um andarilho, pobretão, com maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro, vestido com casaco esgarçado, calças e sapatos desgastados e mais largo que o seu número, um chapéu-coco, uma bengala e seu marcante bigodinho. O personagem humilde e galante passou a ser a figura central de diversos filmes de Chaplin.

The Kid (O Garoto,1921

Conta a história de um bebê que acaba ficando aos cuidados de um vagabundo.

O Circo -1928

Em 1927, com a chegada do cinema falado, Charles Chaplin se opôs ao novo modelo de fazer cinema e, continuou a criar obras-primas baseadas em suas mímicas. São dessa época: City Lights (Luzes da Cidade, 1931)) que conta a história do vagabundo que se finge de milionário para impressionar uma florista cega, por qual se apaixonou. Modern Times (Tempos Modernos, 1936) que satiriza a mecanização da modernidade.

O Grande Ditador - 1940

O filme recebeu cinco indicações ao Oscar em 1941, nas categorias de melhor filme, melhor ator para Charles Chaplin, melhor roteiro original, melhor trilha sonora e melhor ator coadjuvante para Jack Oakle.

Vida Pessoal

Charles Chaplin teve uma vida sentimental intensa, casou-se quatro vezes, os três primeiros com estrelas de seus filmes, das quais se divorciu com escândalos: Milded Harris, Lita Grey e Paulette Goddard. Com 54 anos, conheceu Oona, a filha do teatrólogo irlandês Eugene O'Neill, de apenas 18 anos, com quem se casou, teve seis filhos e com ela viveu até o fim da vida.

Fuga dos Estados Unidos

Apesar da grande popularidade de Charles Chaplin e do sucesso de seus filmes, muitas de suas ideias eram incompatíveis com os setores conservadores da sociedade norte-americana. Seu filme “Shoulder Arms” (Ombros Armas!) de 1918, provocou protestos de pretensos patriotas. Acusado de comunismo, foi perseguido pelo Macarthismo. Em 1952 abandonou os Estados Unidos, indo morar Corsier-sur-Vevey, na Suíça.

Em 1972, Charles Chaplin voltou aos Estados Unidos para receber o Prêmio Especial da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Em 1975, foi agraciado pela Rainha Elizabeth II com o título de Sir.

Charles Chaplin faleceu em Corsier-sur-Vevey, Suíça, no dia 25 de dezembro de 1977.

Filmes de Charles Chaplin

Carlitos Casanova, 1914

O Vagabundo, 1915

O Imigrante, 1917

Vida de Cachorro,1918

Carlitos nas Trincheiras, 1918

Idílio No Campo, 1919

O Garoto, 1921

Pastor de Almas, 1923

Casamento de Luxo, 1923

Em busca do Ouro, 1925

O Circo, 1928

Luzes da Cidade, 1931

Tempos Modernos, 1936

O Grande Ditador, 1940

Monsieur Verdoux, 1947

Luzes da Ribalta, 1952

Um Rei em Nova Iorque, 1957

A Condessa de Hong Kong, 1967

quarta-feira, 5 de abril de 2023

“É assim que acontece a bondade”. Rubem Alves

 

“Se te perguntarem quem era essa que às areias e aos gelos quis ensinar a primavera…”: é assim que Cecília Meireles inicia um de seus poemas. Ensinar primavera às areias e aos gelos é coisa difícil. Gelos e areias nada sabem sobre primaveras. Pois eu desejaria saber ensinar a solidariedade a quem nada sabe sobre ela. O mundo seria melhor. Mas como ensiná-la?

 

Seria possível ensinar a beleza de uma sonata de Mozart a um surdo? Como, se ele não ouve? E poderei ensinar a beleza das telas de Monet a um cego? De que pedagogia irei me valer para comunicar cores e formas a quem não vê? Há coisas que não podem ser ensinadas. Há coisas que estão além das palavras. Os cientistas, os filósofos e os professores são aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas. Coisas que são ensinadas são aquelas que podem ser ditas. Sobre a solidariedade muitas coisas podem ser ditas. Por exemplo: eu acho possível desenvolver uma psicologia da solidariedade. Acho também possível desenvolver uma sociologia da solidariedade. E, filosoficamente, uma ética da solidariedade… Mas o saberes científicos e filosóficos da solidariedade não ensinam a solidariedade, da mesma forma como a crítica da música e da pintura não ensina às pessoas a beleza da música e da pintura. A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras.

 

Palavras que ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis. Os saberes, todos eles, são pássaros engaiolados. Mas a solidariedade é um pássaro que não pode ser engaiolado. Ela não pode ser dita. A solidariedade pertence a uma classe de pássaros que só existem em voo. Engaiolados, esses pássaros morrem.

A beleza é um desses pássaros. A beleza está além das palavras. Walt Whitman tinha a consciência disso quando disse: “Sermões e lógicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo a alma…”. Ele conhecia os limites das suas próprias palavras. E Fernando Pessoa sabia que aquilo que o poeta quer comunicar não se encontra nas palavras que ele diz; antes, aparece nos espaços vazios que se abrem entre elas, as palavras. Nesse espaço vazio se ouve uma música. Mas essa música – de onde vem se ela se não foi o poeta que a tocou?

 

Não é possível fazer uma prova sobre a beleza porque ela não é um conhecimento. Tampouco é possível comandar a emoção diante da beleza. Somente atos podem ser comandados. “Ordinário! Marche!”, o sargento ordena. Os recrutas obedecem. Marcham. À ordem segue-se o ato. Mas sentimos que não podem ser comandados. Não poso ordenar que alguém sinta a beleza que estou sentindo.

 

O que pode ser ensinado são as coisas que moram no mundo de fora: astronomia, física, química, gramática, anatomia, números, letras, palavras.

 

Mas há coisas que não estão do lado de fora. Coisas que moram dentro do corpo. Estão enterradas na carne, como se fossem sementes à espera…

 

Sim, sim! Imagine isso: o corpo como um grande canteiro! Nele se

encontram, adormecidas, em estado de latência, as mais variadas sementes – lembre-se da história da Bela Adormecida! Elas poderão acordar, brotar. Mas poderão também não brotar. Tudo depende… As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas… De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam. Nos jardins há pragas: tiriricas, picões…

 

Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora, poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…

 

Veja o ipê florido! Nasceu de uma semente. Depois de crescer não será necessária nenhuma técnica, nenhum estímulo, nenhum truque para que ele floresça. Angelus Silesius, místico antigo, tem um verso que diz: “A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce”. O ipê floresce porque floresce. Seu florescer é um simples transbordar natural da sua verdade.

 

A solidariedade é como um ipê: nasce e floresce. Mas não em decorrência de mandamentos éticos ou religiosos. Não se pode ordenar: “Seja solidário!”. A solidariedade acontece como um simples transbordamento: as fontes transbordam… Da mesma forma como o poema é um transbordamento da alma do poeta e a canção, um transbordamento da alma do compositor…

 

Já disse que solidariedade é um sentimento. É esse o sentimento que nos torna mais humanos. É um sentimento estranho, que perturba nossos próprios sentimentos. A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo. Ela me pede que eu compre um pacotinho de suas balas. Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável esse sentimento imaginado se aloja junto aos meus próprios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto não são meus sentimentos. Foram-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, são os sentimentos daquele menino que estão dentro de mim. Meu corpo sofre uma transformação: ele não é mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se. Ele está agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo. Isso não acontece nem por decisão racional, nem por convicção religiosa, nem por mandamento ético. É o jeito natural de ser do meu próprio corpo, movido pela solidariedade. Acho que esse é o sentido do dito de Jesus de que temos de amar o próximo como amamos a nós mesmos. A solidariedade é uma forma visível do amor. Pela magia do sentimento de solidariedade, meu corpo passa a ser morada de outro. É assim que acontece a bondade.

 

Mas fica pendente a pergunta inicial: como ensinar primavera a gelos e areias? Para isso as palavras do conhecimento são inúteis. Seria necessário fazer nascer ipês no meio dos gelos e das areias! E eu só conheço uma palavra que tem esse poder: a palavra dos poetas. Ensinar solidariedade? Que se façam ouvir as palavras dos poetas nas igrejas, nas escolas, nas empresas, nas casas, na televisão, nos bares, nas reuniões políticas, e, principalmente, na solidão…".



FONTE - Rubem Alves, no livro “As melhores crônicas de Rubem Alves”

 

SOBRE O AUTOR - Rubem Alves (1933 a 2014) foi um psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro, é autor de livros religiosos, educacionais , existenciais e infantis. Foi professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 


quinta-feira, 16 de março de 2023

Sociedade Humana - Organismo Social - Cidadãos

 

"Criança: Da Anomia à Autonomia"

 "Toda sociedade humana deseja continuar a existir como organismo social. Para isso, ela necessita que os indivíduos que a compõem, sejam cidadãos responsáveis e equilibrados o suficiente para que ocorra uma convivência harmônica entre todos, permitindo que cada pessoa e grupos atinjam seus objetivos. A sociedade utiliza a educação para não só transmitir conhecimentos, mas em especial, para continuar a existir, capacitando as novas gerações, através da humanização e socialização, para viverem em sociedade, formando atitudes e comportamentos saudáveis, com atitude crítica e responsável no agir individual e grupal.

Os objetivos que a sociedade deseja atingir, com a humanização e a socialização das pessoas, são atingidos quando, dentre outros modos maduros de agir, as pessoas agem com “autonomia”. Sabe-se que uma pessoa está agindo com “autonomia” quando ela já tem consciência das regras e normas da sociedade onde vive, seguindo-as, e suas ações são feitas por iniciativa própria sem a influência e a necessidade de alguém ficar mandando fazer, tendo a liberdade de escolha entre as ações, seja para fazer alguma coisa, para pensar ou para utilizar seus juízos morais. A sociedade considera que uma pessoa está nessa etapa almejada, quando ela desenvolveu o autocontrole, a autocrítica (não absorve passivamente as informações, mas as transforma), tem consciência do certo e do errado, tomando as decisões sobre quais comportamentos deve ter. Quando uma pessoa age com “autonomia”, ela está demonstrando que internalizou os valores morais de seu meio ambiente, é fiel a eles, tem atitudes baseadas neles e não por ter receio de sanções externas. E quando age com “autonomia” está utilizando a sua razão, conforme dizia o filósofo alemão prussiano Immanuel Kant ou está utilizando seus próprios juízos morais e de valor, construídos através do relacionamento com as outras pessoas, conforme era o pensar do pedagogo suíço Jean Piaget.

A sociedade pretende, com a educação das novas gerações, que as crianças e os jovens cheguem a essa etapa evolutiva da “autonomia”, saindo das outras duas etapas que a precedem. A etapa da “anomia” é, geralmente, a etapa das crianças pequenas: com seu egocentrismo natural da infância, elas querem fazer somente o que desejam, sem considerar os outros e sem seguir regras e normas, pois ainda não aprenderam e não assimilaram essas regras e normas do meio social. As crianças vão saindo, gradativamente, dessa etapa, mudando para uma nova etapa evolutiva, a da “heteronomia”, através do convívio com as outras pessoas e estimuladas pela educação e influências culturais que recebem. Nessa nova etapa, as crianças já aprenderam e conhecem as regras e normas que devem seguir, mas ainda estão dependentes dos adultos, e aguardam que alguém decida por elas, ainda ficam esperando que os outros digam o que elas devem fazer. Fazem só o que mandam fazer ou fazem se sofrerem pressão social do grupo onde vivem. Neste sentido, muitas pessoas agem como se estivessem nessa fase da “heteronomia”, sem utilizarem as próprias ideias, mas preferindo utilizar passivamente as informações que recebem dos outros.

O processo da educação, estruturado pela sociedade para as novas gerações, faz com que as crianças e os jovens sejam estimulados a atingirem a etapa almejada, e possível, para todo ser humano: a da “autonomia”.  Apesar de ser esse o objetivo de toda educação, na sociedade atual são encontradas, infelizmente, muitas pessoas que parecem ter parado na etapa da “anomia” pois não respeitam as regras, normas e as leis da sociedade, não respeitam as outras pessoas, não possuem valores morais e éticos, agem sem autocontrole, apresentando comportamentos violentos, agressivos, desonestos, envolvendo-se em crimes, corrupção e uma série de outros comportamentos prejudiciais à sociedade onde vivem. E outros parecem estar na fase da “heteronomia”, só fazendo o que mandam fazer, dependentes dos outros. O Brasil, como país, parece estar nesta fase, dependente de organismos internacionais…"

FONTE - Criança: Da Anomia à Autonomia (pedagogiaaopedaletra.com)

https://pedagogiaaopedaletra.com/anomia-autonomia/ (Atualizado em 19/06/2021)

segunda-feira, 6 de março de 2023

Valores e aprendizados não tiram férias (Por Içami Tiba)

 


Os filhos não podem fazer nas férias o que não poderiam fazer em um final de semana, em uma viagem, em qualquer lugar, com qualquer pessoa, principalmente no que se referem aos valores, como respeitar o próximo e fazer-se respeitar por ele, cumprir as regras sociais e familiares, cuidar e preservar a saúde e a segurança, praticar a cidadania familiar etc.


O que tira férias são as frequências às aulas, com os seus conteúdos e deveres psicopedagógicos, juntamente com o relacionamento professor-aluno, e não o viver com qualidade e o constante aprendizado da vida para sermos pessoas de "alta performance".

Mesmo chocando uns, há outros pais que querem tirar férias dos filhos pequenos porque precisam descansar, descontrair, fazer uma viagem, dar um tempo na rotina profissional e até mesmo dos filhos que não lhes dão sossego. Adultos quando chegam aos lares querem paz, e, crianças, querem pais. Todavia, não seria de se estranhar se estes filhos quisessem "se ver livres" destes pais cansados e também tão cansativos.

Adultos há que se permitem fazer em viagens, na praia, no clube ou quando estão de passagem em algum lugar o que não fariam em casa: jogar papel na sala, atirar pela janela latas e garrafas de bebidas (cascas de frutas, sacos de papel) no seu próprio jardim, deixar banheiro sujo, cuspir no tapete, fazer as necessidades nos cantos dos quartos etc. Estes adultos não estão tirando férias da sua casa, mas dando férias à educação e à civilidade. Importantes valores devem acompanhar as pessoas como se fossem a própria alma estejam onde e com quem estiverem.
Estes pais estão financiando a falta de educação, o desrespeito ao próximo, a depredação e o uso pirata do seu mundo e a negligência com os deveres sociais aos seus filhos.

Portanto, é na convivência com os filhos que os pais mostram como se comportar civilizadamente em qualquer lugar. Reforço aqui a importância da prática doméstica da educação pela cidadania familiar: ninguém pode fazer em casa o que não poderá fazer fora de casa e todos devem praticar em casa o que deverão fazer na sociedade.

A cidadania familiar nunca tira férias. Mesmo que um filho esteja de férias, longe dos pais, ele não deve fazer o que aprendeu em casa que não pode fazer: experimentar drogas é um exemplo.


Sobre o Autor - Sobre o Autor - Içami Tiba, [Tapiraí, 15 de março de 1941 -

São Paulo, 2 de agosto de 2015] - foi um médico psiquiatra, psicodramatista, colunista, escritor de livros sobre Educação, familiar e escolar, e palestrante brasileiro. Professor em diversos cursos no Brasil e no exterior, criou a Teoria da Integração Relacional, que facilita o entendimento e a aplicação da psicologia por pais e educadores. Como palestrante Tiba também já fez mais de 3.200 participações de eventos do gênero, tanto no Brasil como em outros países.

 

Fonte - http://www.tiba.com.br/artigo.php?id=054









terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

DIÁLOGOS SOBRE AFETIVIDADE (Ivan Capelatto) (1)

 


FAMILIA? O que é isso?

Família é nosso lugar. Lugar de afetividade, de cuidado, de limite e de conflito. Lugar de amar, brigar, gritar, reparar, pedir desculpas, beijar abraçar. Lugar para criar raízes e assas.

Nós nos preparamos para fazer tudo na vida: se eu quero ser chefe na minha empresa, faço um curso; se eu quero ser médico, faço seis anos de faculdade, mais dois anos de residência. Mas não nos ensinam a ser pai e mãe. E um filho é para sempre.

 

Família é afetividade, que é conflito

A afetividade é o maior conflito humano, porque envolve o seguinte: eu amo muito meu filho e é com ele que eu mais brigo. Acontece com você?


1 - O que é ser família e quais são os conflitos que a envolvem?

Ivan Capelatto: O que é a família?  A família é um conjunto de pessoas que se unem pelo desejo de estar juntas, por uma dinâmica chamada afetividade. E a afetividade é o maior conflito, humano, porque envolve o seguinte: eu amo muito o meu filho e é com ele que mais brigo. É preciso suportar esse conflito, compreender esse conflito, porque, sabemos que, quando brigamos em casa, isso é sinal de amor, que podemos brigar, gritar e depois reparar, pedir desculpas, beijar, abraçar. É o conflito que nos mantém vivos.

Precisamos ter sempre clara em nossa cabeça essa ideia muito séria e, às vezes, difícil de entender, que é o conflito. Costumo dizer aos pais: imaginem que todos nós vivêssemos muito bem, como anjos, que fôssemos felizes o tempo todo, que não precisássemos cuidar de nada e de ninguém, não precisássemos comer, nem fazer cocô, nem xixi, nem sexo; nem dormir e nem escovar os dentes. Estaríamos mortos, porque perderíamos a razão da vida, que é o conflito.

Quando os pais, para evitar o conflito começam a deixar os filhos fazerem o que querem, terem autonomia - que, na verdade, não é autonomia -, começam a lidar com a morte. A ausência de conflito é a morte. Quando, para escapar de sua angústia, um jovem bebe álcool, usa droga, corre com o carro para sentir a adrenalina, enfim, foge do conflito com uma mudança cerebral, ele entra num processo de morte que chamamos de instinto de morte. Todas as vezes que escapamos dos conflitos sem tentar resolvê-los, começamos a morrer. Por isso, temos hoje tanta depressão na sociedade e depressão entre jovens e crianças. É porque os pais, às vezes, para evitar conflitos com os filhos, não impõem limites.

Limites são cuidados, cuidados geram conflitos e temos de lembrar que o maior significado da vida é o conflito. Todo dia, temos de ter conflito. Quando passamos um dia sem conflito, é preciso arranjar um, porque senão começamos a morrer. Basta ver as férias. Algumas pessoas adoecem nas férias, outras ficam irritadas quando saem de férias, porque acabou o conflito, o conflito do trabalho. Essa pessoa precisa criar um outro conflito e, às vezes, começa a implicar com o filho, com o marido, com a sujeira da casa. Os homens, quando se aposentam, às vezes, ficam irritantes, querem arrumar tudo em casa, pintar paredes, brigam com a mulher porque há coisas fora do lugar. Tudo porque acabou o conflito no trabalho. O ser humano não pode viver sem conflito. Só anjo - se é que ele existe - vive sem conflito.

 

2 - Como podemos conviver com tantas transformações e conflitos na família e, ainda assim, garantir a constituição da identidade do filho como indivíduo, formando-o para a vida?

É complicado responder isso em poucas palavras, mas para que se tenha uma ideia, a base do ser humano, ou melhor, a base para que uma pessoa se torne um ser humano são exatamente as referências que ela tem na vida. As referências só se constituem de forma afetiva. Não existem referências sociais para uma criança. As referências que ela usa para poder se ver, para poder se tornar um eu pensante, um eu falante, são referências afetivas. As referências afetivas são pessoas, são palavras e gestos que os outros usam na vida e que vão, de alguma forma, transformar-se em relação de cuidado ou de descuido para com a criança. A leitura que a criança faz desses gestos e dessas palavras, desses atos do adulto, seu cuidador, é que vai desencadear o processo que chamamos de identidade ou formação de identidade. Então, é na afetividade, isto é, na maneira como se fazem os vínculos entre o adulto e a criança que a identidade vai ser favorecida ou não.

 

3 - Em uma de suas palavras, você disse que a família dá “asas e raízes”. Gostaríamos que explicasse melhor o que isso quer dizer.

Asas e raízes são partes diferentes de objetos diferentes. As raízes são partes da planta que tiram do solo alimento e sustentação. As asas podem ser partes de animais ou objetos e são símbolo fundamental da liberdade e da autonomia. E esta é a função mais e importante dos pais: fazer com que os filhos tenham raízes na família e possam ter asas também. Quer dizer, a família superpõe essas luas ideias e é nela que buscamos uma referência, nossas raízes. E essa referência do sujeito é igual em qualquer lugar do mundo: é a referência afetiva. Pai, mãe ou alguém que substitua pai e mãe. Já a autonomia, são as asas.

O filho é o sujeito que tem de ir aos poucos se libertando dos pais, mas não das raízes. Sempre temos de ter para onde voltar e sempre voltamos para o lugar afetivo. Por isso, a função fundamental da família é ser raiz e, ao mesmo tempo, oferecer oportunidade autonomia, sabendo que essa relação nunca se cinde, nunca se quebra, nunca se separa. Precisamos ter asas e raízes, ou seja, voar com os pés no chão.

O que tem acontecido é que os pais começaram a criar um mito muito perigoso, que é a ideia da liberdade. Eles não têm dado raízes e não têm dado asas. Têm praticado uma coisa perigosa chamada negligência, que é, às vezes, ter um filho de nove anos e não saber onde ele está ou um menino de 15 anos e não conseguir mostrar limites para ele, não conseguir saber o que ele faz, com quem está, onde vai, o que pensa a respeito da vida.

Atualmente, os pais imaginam que os filhos, por já saberem tanto sobre a vida, são capazes de se cuidar. Sabemos que uma pessoa só é capaz de se cuidar a partir dos 21 anos de idade, quando o cérebro amadurece. Então, até os 21 anos, precisamos de raízes. A negligência a que me referi antes quer dizer: "Mãe, eu vou sair. Ao que a mãe responde: "Tá bom!"

A negligência não é nem raiz nem asa. A negligência é abandono. É um filho sem asas que pensa que está voando; daí, ele cai.

 

4 - Na sua opinião, em que idade o filho precisa mais da mãe?

Quanto mais velho, mais ele precisa de mãe. Assim, quando for casado, tiver filhos, ainda precisará de mãe. O tempo todo os filhos precisam das mães, precisam de cuidado. Todos temos de ter referência. Quando não temos referência na família, buscamos fora. Nenhum de nós é divino o suficiente, ou Deus, para poder ficar sem referência.

 

5 - Quais as consequências, para uma criança, quando o pai fala uma coisa e a mãe fala outra?

Quando o pai fala uma coisa e a mãe fala outra, ocorre dois problemas: a criança vai começar a se aliar a quem dá menos limites e também a se sentir culpada em relação àquele que dá limite. Temos um duplo problema e, por isso, os pais precisam tomar cuidado.


SOBRE O AUTOR - IVAN CAPELATTO - Natural de Rio Claro,
SP, nascido a 9 de Janeiro de 1950. Psicólogo e psicanalista; Mestre em Psicologia Clínica pela PUCCAMP, Formou-se em Psicologia Clínica pela PUC-Campinas, onde também fez seu mestrado, ainda na área clínica. Psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos desde 1973. Palestrante convidado do Café
Filosófico (Instituto CPFL).


Fonte - CAPELATTO, Ivan. Diálogos sobre afetividade. 6ª ed. Campinas, SP: Papirus, 2012.





terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Sobre Autoestima (Flávio Gikovate)

 

Só existe autoestima quando uma pessoa vive de acordo com suas ideias, sem ofender o código de valores que ela construiu ao longo da vida. Uma pessoa para quem a honestidade é fundamental poderá ficar rica se aceitar suborno, mas sua autoestima cairá, inevitavelmente. Não é possível alguém gostar de si mesmo, ter um bom juízo de si, se estiver agindo em desacordo com seus princípios.

 

Os valores de cada pessoa, assim como os de cada sociedade, variam muito e dependem fundamentalmente do ambiente em que ela cresceu. Nos primeiros anos de vida, incorporamos essas normas com o objetivo de agradar aos adultos que nos são importantes. Aprendemos seus valores e os adotamos, porque este é o caminho para sermos amados por eles. Os adultos usam essa necessidade das crianças de serem protegidas e acariciadas como instrumento para educá-las, ou seja, transmitir à nova geração as normas daquela comunidade. Mas isso é apenas o princípio do processo. A partir de um certo ponto do nosso desenvolvimento, passamos a contestar os valores que nos foram impostos pela educação. Isto pode ser feito de um modo bastante estabanado e grosseiro, negando, apenas por negar, tudo o que nos ensinaram (e são muitos os adolescentes que agem assim). Entretanto, também podemos reavaliar nossos princípios de um modo mais sofisticado, comparando-os com outros pontos de vista ou submetendo-os a uma experimentação na vida prática.

 

Se fomos educados, por exemplo, a não transigir, tornando-nos pessoas rígidas e prepotentes, isso pode nos trazer muitos inimigos e afastar as pessoas de quem gostamos. A prática da vida nesse caso poderá nos ensinar a ter mais “jogo de cintura”, ou seja, a afrouxar um pouco mais os nossos critérios quanto à liberdade e aos direitos de cada pessoa. Sempre que mudarmos nossos valores devemos conseguir mudar também nossa conduta. O objetivo disso é fazer com que possamos viver de acordo com nossas ideias, condição indispensável para uma autoestima positiva. Mas outra condição se impõe para uma boa autoestima: levar uma vida produtiva, em constante evolução.

 

Se uma pessoa gosta de cozinhar, ela tenderá a se dedicar a essa atividade. Será capaz de avaliar seus avanços por meio da reação das pessoas que provam sua comida e não adianta negarmos: somos dependentes das reações dos que nos cercam e nos são queridos. Os elogios reforçarão suas convicções de que está indo pelo caminho certo, enquanto as críticas indicarão a necessidade de correção de rota. Com o passar do tempo e o crescer da experiência, ela saberá avaliar a qualidade de sua comida por si mesma, tornando-se menos dependente do julgamento dos outros. Sua autoavaliação vai se tornando mais importante que a dos outros. Sua autoestima vai se cristalizando em um patamar alto, sólido e independente do ambiente.

 

Mas é importante ressaltar que esta imagem positiva de si mesmo não pode ser construída do nada. Não adianta a pessoa se olhar todos os dias no espelho e dizer: “Eu sou uma pessoa legal, mereço as coisas boas da vida, eu me amo”. Agir assim é acreditar que se pode enganar a si mesmo com discursos bonitos e falsos. Precisamos agir sempre de acordo com as nossas convicções, levar uma vida produtiva e nos aprimorar naquilo que fazemos.

 

Não importa qual seja a atividade, precisamos nos relacionar com o nosso meio e receber dele sinais positivos de que nossa ação é boa e que está em permanente evolução. Se uma pessoa não faz nada, não se dedica a nenhum tipo de atividade, não terá a menor chance de ter uma boa autoestima. Ela não se testa para saber qual é o seu valor e a dúvida puxa para baixo a autoavaliação. E de nada adianta colocar uma máscara e sair por aí com ares de quem “se ama e muito”. Isso não engana ninguém!



Sobre o Autor - Flávio Gikovate foi um médico psiquiatra, psicoterapeuta e escritor brasileiro. Nasceu em 11 de janeiro de 1943 - São Paulo. Faleceu em 13 de outubro de 2016 - São Paulo. 

GRIFOS - feitos por mim.

FONTE - Texto de Flávio Gikovate IN: Livro: "MUDAR - Caminhos para a transformação verdadeira"


sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

“É necessário criar uma forma de pensar” - Einstein

 

A 14 de março de 1879, nascia em Ulm, pequena cidade alemã às margens do Danúbio, um menino com a cabeça tão grande e angular que preocupou, consideravelmente, seus familiares. O bebê, que o médico garantiu ser uma criança perfeita, recebeu o nome de Albert Einstein.

Era como se a História estivesse unindo o nome de Einstein - precursor de uma nova era - ao de Kepler-artífice da época científica anterior - que morrera nessa mesma cidade de Um, berço do maior cientista do século XX - o "Século de Einstein"*

As teorias einsteinianas provocaram profundas modificações na Física clássica e lhe valeram o Prêmio Nobel de Física, em 1921, pelo seu Efeito Fotoelétrico, descrito na Teoria Fotônica da Luz. Mas, acima de tudo, Einstein foi um homem polêmico. Mesmo sendo um pacifista, colaborou para a construção da primeira bomba atômica e, embora acreditasse em Deus, reformulou as leis tidas como eternas. Sua infância também não foi das mais tradicionais. Ele só começou a falar aos três anos de idade e chegou a ouvir de um de seus professores a vá profecia: "Você nunca chegará a ser coisa alguma na vida". Entretanto, uma bússola que ele recebeu de presente aos cinco anos de idade e o livro de Geometria de Euclides, já aos 14 anos, despertaram naquele menino uma profunda identidade com as forças do universo.

Selecionamos, entre seus pontos de vista, algumas considerações significativas, que transcrevemos a seguir.

a um estudante:

- Não se preocupe com as suas dificuldades em matemática. Posso lhe assegurar que as minhas são ainda maiores.

sobre a humildade:

- Cada pessoa seriamente empenhada em conquistas científicas se convence da existência de um espírito que preside as leis do universo -- um espírito vastamente superior ao do homem e diante do qual nós, com nossos modestos poderes, devemos nos sentir humildes.

os prazeres.

- Não dou a menor importância ao dinheiro. Condecorações, títulos e outras distinções nada significam para mim. Também não vivo a procura de elogios. As únicas coisas que me dão prazer, fora o meu trabalho, o meu barco a vela e o meu violino, são a compreensão e o apreço dos meus colegas cientistas.

sobre o espírito da ciência:

-- Sou por natureza inimigo das dualidades. Dois fenômenos ou dois conceitos que parecem diversos me ofendem. Minha mente tem um objetivo supremo: suprimir as diferenças. Assim agindo permaneço fiel ao espírito da ciência que, desde o tempo dos gregos, sempre aspirou à unidade. Na vida, como na arte, assim é também. O amor tende a fazer de duas pessoas um único ser. A poesia, com o uso perpétuo da metáfora que assimila objetos diversos, pressupõe a identidade de todas as coisas.

caso suas previsões não se confirmassem:

- Então eu lamentaria pelo bom Deus, pois a teoria está correta.

 

EINSTEIN E PIAGET

A concepção de tempo, espaço, velocidade,
simultaneidade (conceitos eminentemente físicos) variam ao longo do desenvolvimento da criança, de forma radical, como se em cada estágio do desenvolvimento a criança assumisse a forma de um "'einstein" paleontológico. Certa vez conta Piaget, Einstein (após ouvir uma de suas conferências) pediu-lhe que investigasse como as crianças concebem, sucessivamente, a simultaneidade e a velocidade. Quando, em outro encontro, Piaget transmitiu-lhe os resultados (que, por acaso, confirmam as teorias einsteinianas), Einstein, empolgado, comentou que a Psicologia era ainda mais complexa que a Física.

Ora, essa transitividade da maneira de pensar não foi sequer
incorporada pelos psicólogos e educadores; da mesma forma como a maioria dos físicos e matemáticos não incorporaram ainda a teoria da relatividade em sua maneira rotineira de pensar. Serão precisos séculos para que as ideias de Einstein sejam digeridas pela humanidade, em seu dia-a-dia. O mesmo acontecerá, em ciências humanas, com Jean Piaget, cujo centenário ocorrerá às vésperas do ano 2000 (ele nasceu a 9 de agosto de 1896, em Neuchâtel, na Suíça). [Texto escrito em abril/1979]

Sobre o Autor – Lauro de Oliveira Lima foi um 
pedagogista brasileiro, conhecido pela sua atuação política na educação e pelo desenvolvimento do Método Psicogenético, estruturado a partir da Epistemologia Genética de Jean Piaget. Em 1949, formou-se em Direito e em 1951 em Filosofia. Nascimento: 12 de abril de 1921, Limoeiro do Norte, Ceará. Falecimento: 29 de janeiro de 2013(91 anos) Rio de Janeiro, Brasil.

 

FONTE – LIMA, Lauro de Oliveira. Temas Piagetianos. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1984. Páginas 16-17.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Existe vida após parto?


 Dois bebês conversavam no ventre da mãe. Um perguntou ao outro:

“Vc acredita em vida após o parto?”

O outro respondeu: “É claro. Tem que haver algo após o parto. Talvez nós estejamos aqui para nos preparar para o que virá mais tarde.”

“Bobagem”, disse o primeiro. “Não há vida após o parto. Que tipo de vida seria esta?”

O segundo disse: “Eu não sei, mas haverá mais luz do que aqui. Talvez nós poderemos andar com as nossas próprias pernas e comer com nossas bocas. Talvez teremos outros sentidos que não podemos entender agora.”

O primeiro retrucou: “Isto é um absurdo. Andar é impossível. E comer com a boca!? Ridículo! O cordão umbilical nos fornece nutrição e tudo o mais de que precisamos. O cordão umbilical é muito curto. A vida após o parto está fora de cogitação.”

O segundo insistiu: “Bem, eu acho que há alguma coisa e talvez seja diferente do que é aqui. Talvez a gente não vá mais precisar deste tubo físico.”

O primeiro contestou: “Bobagem, e, além disso, se há, realmente, vida após o parto, então, por que ninguém jamais voltou de lá? O parto é o fim da vida e no pós-parto não há nada além de escuridão, silêncio e esquecimento. Ele não nos levará a lugar nenhum.”

“Bem, eu não sei”, disse o segundo, ” mas certamente vamos encontrar a Mamãe e ela vai cuidar de nós.”

O primeiro respondeu: ” Mamãe, vc realmente acredita em Mamãe? Isto é ridículo. Se a Mamãe existe, então, onde ela está agora?”

O segundo disse: “Ela está ao nosso redor. Estamos cercados por ela. Nós somos dela. É nela que vivemos. Sem ela, este mundo não seria e não poderia existir.”

Disse o primeiro:” Bem, eu não posso vê-la, então, é lógico que ela não existe.”

Ao que o segundo respondeu: ” Às vezes, quando vc está em silêncio, se vc se concentrar e realmente ouvir, vc poderá perceber a presença dela e ouvir sua voz amorosa lá de cima.”

 

(Texto do escritor húngaro Útmutató a Léleknek)

Fonte - https://metamorfosecrista.wordpress.com/tag/escritor-hungaro-explica-a-existencia-de-deus/