sexta-feira, 30 de julho de 2021

BRINCADEIRAS: desenvolvimento infantil

 

 O papel das brincadeiras no desenvolvimento infantil

É inquestionável a importância da brincadeira para o desenvolvimento infantil. Ela está inserida na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), sendo um dos seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento da criança: 1. conviver, 2. brincar, 3. participar, 4. explorar, 5. expressar e 6. conhecer-se.

A partir dos seis direitos, a BNCC estabeleceu também os campos de experiência, fundamentais para que a criança possa aprender e se desenvolver:

O eu, o outro e o nós;

Corpo, gestos e movimentos;

Traços, sons, cores e formas;

Escuta, fala, pensamento e imaginação;

Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações.

A brincadeira é, portanto, uma parte fundamental da aprendizagem e desenvolvimento da criança, momento em que ela exercita todos os seus direitos e estabelece contato com os campos de experiência, como protagonista de seu desenvolvimento.

Particularmente, as brincadeiras têm um papel destacado nas Escolas Democráticas, cuja preocupação principal é a adaptação entre as novas gerações e as formas de trabalhar na Educação Infantil.

O que é uma Escola Democrática?

A Escola Democrática é um tipo de escola onde os processos de ensino e aprendizagem têm por princípio a participação das crianças como protagonistas na busca pelo conhecimento e dos educadores como facilitadores e inspiradores dessa busca.

A concepção democrática de escola respeita a criança como ser único que desenvolve seu aprendizado e é sempre capaz de encontrar a melhor maneira para construir seus conhecimentos, respeitando a heterogeneidade e a individualidade da comunidade escolar.

Além disso, propõe o compartilhamento das decisões entre crianças, gestores, educadores, funcionários e pais, inserindo toda a comunidade escolar no processo de decisão. Trata-se de uma escola que, sem dúvida, vem propondo a construção de uma educação para todos e sempre em busca de melhoria na qualidade do ensino.

A brincadeira povoa o imaginário infantil, enriquecendo o universo, as vivências e as experiências da criança, pois pela brincadeira apropria-se de sua imagem, espaço e meio sociocultural, interagindo consigo e com a comunidade.

A Escola Democrática tem o papel de, a partir da brincadeira, difundir conteúdo e estimular a interação da criança com seus pares, apresentando regras de convívio social e desafios, a partir dos quais a criança irá construir sua moralidade, afetividade, autonomia, conhecimento e socialização.

Nesse sentido, o brincar, de diversas formas, em diferentes espaços e tempos e com diferentes pares, é responsável por ampliar e diversificar o universo infantil, criando novas possibilidades.

As participações e as transformações introduzidas pela criança na brincadeira devem ser valorizadas, tendo em vista o estímulo ao desenvolvimento de seu conhecimento, imaginação, criatividade, experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais.

Qual é o papel do facilitador nas brincadeiras?

A Escola Democrática parte do princípio que ao educador cabe promover o estímulo da criança pela busca de conhecimento, facilitando o exercício dessa busca por meio de brincadeiras, respeitando e valorizando a diversidade de seus entes e os repertórios culturais que afloram – tanto do grupo como individualmente.

Portanto, o adulto é observador e não deve interferir , a menos que haja a manifestação da criança com pedido de ajuda ou orientação ou, ainda, quando a criança encontra obstáculos, mantendo o cuidado em não mudar a ordem e os comandos estabelecidos na brincadeira/coleta/coleções/construções.

O espaço é organizado pelo professor/facilitador de modo a estimular as brincadeiras, sua seleção, as atitudes de cooperação entre as crianças, instigando a socialização do espaço lúdico e sempre respeitando a vontade de seus atores.

O papel do professor/facilitador na brincadeira é de observador, elaborando registros daquilo que a criança mostrou durante o brincar, observando as diferentes linguagens sociais, afetivas e emocionais de cada criança.

Por que o brincar é importante para o desenvolvimento infantil?

O momento da brincadeira é uma oportunidade de desenvolvimento para a criança. Através do brincar ela aprende, experimenta o mundo, possibilidades, relações sociais, elabora sua autonomia de ação e organiza suas emoções.

O principal objetivo da brincadeira é explorar. Para uma criança pequena, tudo é experimento, até jogar e brincar com o prato de comida. A brincadeira é um espaço para explorar sentimentos e valores, assim como para desenvolver suas habilidades.

A brincadeira surge de objetos estruturados e não estruturados, disponibilizados para as crianças. A partir da brincadeira, observamos que a exploração e a sequência lúdica dependem, única e exclusivamente, de cada criança ou, por vezes, de um grupo de crianças dispostas a compartilhar o brincar.

Através do brincar e a partir do sentimento que aflora em cada brincadeira, a criança faz a leitura do mundo e aprende a lidar com ele, recria, repensa, imita, desenvolvendo, além de aspectos físicos e motores, aspectos cognitivos, bem como valores sociais, morais, tornando-se cooperativo, sociável e capaz de escolher seu papel na sociedade.

Quando a criança tem a oportunidade de escolha, que inicia com o brincar, ela exercita a sua liberdade e assim se torna uma criança mais observadora e crítica, não aceitando com facilidade que seja comandada.

Para enfrentar o mundo, temos que ser sociáveis, manifestar desejos e expressar opiniões, assim, a criança precisa saber o seu papel, seja na sua casa, na escola, na rua, no seu bairro, por fim, na sociedade para, a partir desse conhecimento, apropriar-se de suas escolhas.

No brincar a criança explora, coleta, seleciona, coleciona e constrói conforme a sua vontade e/ou através de observações de experiências anteriores. Assim, ela aprende a elaborar suas reflexões, estratégias, independência e criatividade, permitindo que aumente a sua experiência e do grupo na qual está inserida.

As brincadeiras contribuem no desenvolvimento infantil de forma decisiva, construindo um adulto que acredita em seu potencial transformador, cultivando dentro de si uma forte vontade de viver em um mundo melhor.

Como as crianças brincam?

Para as crianças, tudo pode virar um brinquedo .

Muitas vezes elas brincam com matérias que chamamos de não estruturadas, como canos de PVC, tocos de madeira, panelas, pratos de plásticos, travessas/bacias de plástico, vasilhas com tampas, talheres de plásticos e muitos materiais de cozinha, jogos de encaixe, alinhavos, bambolês, carros, bonecas, fantoches etc.

A partir da exploração desses materiais, as crianças constroem as brincadeiras e a imaginação voa .

Os materiais devem ser selecionados conforme a faixa etária e grupo que está sendo trabalhado e a exploração acontece. A música também é muito atrativa, assim como contação de histórias.

O importante é garantir que o brincar aconteça em vários momentos durante o dia da criança e que ela seja sempre protagonista da brincadeira.

FONTE - Este artigo foi redigido por  SPES Infantil – Serviço Social da Paróquia São Paulo Apóstolo. Postado em ago 08, 2019.  Disponível em https://www.phomenta.com.br/papel-brincadeiras-desenvolvimento-infantil? Acessado em 26/07/2021.

IMAGENS - Sábado Divertido/ MAKURU - 2020.



terça-feira, 27 de julho de 2021

A arte de ser avó (Rachel de Queiroz)

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo…

Quarenta anos, quarenta e cinco… Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as suas compensações – todos dizem isso, embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.

E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choros, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixados pelos arroubos juvenis.

[…]

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: “Vó!”, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

[…]

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesmo, não foi, Vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague…


Sobre a Autora -
Rachel de Queiroz (1910-2003) foi uma escritora brasileira. A primeira
mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras e a primeira mulher a receber o Prêmio Camões. Foi também jornalista, tradutora e teatróloga. Seu primeiro romance "O Quinze", ganhou o prêmio da Fundação Graça Aranha.

terça-feira, 29 de junho de 2021

O tempo (Bráulio Bessa)


O tempo…

 

Sempre vivo e indeciso,

ora corre, ora voa,

consegue curar feridas,

no mesmo instante as magoa.

Ninguém escapa do tempo

invisível feito o vento

que toca qualquer pessoa.

 

O tempo me modelou,

me arrancou do meu ninho,

clareou os meus cabelos,

me bateu, me fez carinho.

O tempo me fez voar,

me ensinou a caminhar,

mas não mostrou o caminho.

 


Por tanto tempo o tempo

fez papel de diretor,

um roteirista confuso,

ora ódio, ora amor,

gritando silencioso,

tão claro e misterioso

feito o mar pro pescador.

 

O tempo me fez poeta,

artista, palco e cenário,

me fez imaginação,

aí, encontrou um páreo,

pois, para o tempo, o artista

sempre foi um adversário.

 

Só o artista segura 

e faz parar o ponteiro

que faz o dia ser noite

e último ser primeiro,

e que tem a ousadia

de determinar o dia

que será o derradeiro.

 

A liberdade da arte

deixa o tempo aprisionado,

faz o relógio da vida

adiantado, atrasado,

e num segundo de paz

toda guerra se desfaz

se o relógio for parado.

 

Já que o tempo é infinito

e o artista o domina,

ser eterno e ser mortal

talvez seja minha sina,

atuar num espetáculo

que nunca fecha a cortina.

 

A única previsão

que é certa sobre o tempo

é que ele vai passar.

Por isso cada momento

deve ser aproveitado,

vivido e depois guardado

na caixa do pensamento.

 

O tempo está sempre vivo

num grande desassossego,

inquieto, inconstante,

é pancada e é chamego,

é solução e problema.

O tempo é só um poema

dizendo: já fui, já chego.


Sobre o autor - Bráulio Bessa Uchoa é um poeta,
cordelista, declamador e palestrante brasileiro.

Nascimento: 1985, em Alto Santo, Ceará.


quarta-feira, 23 de junho de 2021

De quem é a mochila? "Ética e Mochila Escolar (Içami Tiba)"


Já há algum tempo, pesquiso sobre alguns aspectos relacionados à educação nas "entradas e saídas" de algumas instituições escolares. 

E em muitos destes episódios vejo a ausência de pontos importantíssimos e que possivelmente serão  sentidos por essas crianças e/ou jovens em sua relações com "o outro" e até com eles mesmos. 

Alguns deste pontos estão relacionados à autonomia, ao respeito,  a solidariedade, ao coletivo, dentre outros.

Encontro em textos de Içami Tiba a representação de minhas reflexões/ preocupações...



Ética e Mochila Escolar (Içami Tiba)


"É quando o discípulo está pronto
que o mestre aparece." 
É um velho ditado hindu. Muitas vezes o mestre não é uma pessoa, mas um episódio do cotidiano. A Psicologia Educacional está presente nos pequenos atos, que podem passar despercebidos.

Venha comigo observar, à porta de uma escola qualquer, a hora da chegada das crianças com as respectivas mães. Observe: quem carrega a mochila escolar? Na maioria das vezes é a mãe. Essa mãe, por hipersolicitude e num gesto de amor, carrega a mochila do filho para poupá-lo desse esforço. Há mãe exagerada: leva três mochilas nas costas, segura ou carrega o filho menor, enquanto vai cuidando para que os outros filhos não fiquem se matando pelo caminho.

E, quando chegam ao portão da escola, o que acontece?

O filho foge para dentro da escola, e a mãe tem de correr atrás dele para entregar-lhe a mochila e, já com os lábios estendidos, dar-lhe um beijinho de despedida...

Por que um filho, nessa despedida, não beija sua mãe?

Qualquer ser humano, ao se separar de alguém, pelo menos por educação, se despede. Os enamorados beijam-se tão demoradamente que é impossível saber se estão se despedindo, ou "ficando", ou até mesmo chegando... Somente quando não usufruímos a companhia é que "saímos de fininho", isto é, sem nos despedir dela. Portanto, se um filho não beija sua mãe é porque não usufruiu prazerosamente sua companhia. Significa também que o filho não reconheceu a ajuda que a mãe lhe deu.

Ajudar é muito nobre e um gesto de amor, ao qual mãe nenhuma se furta. Mas, se não ficar claro que a mãe o está ajudando, o filho pode entender que é responsabilidade dela carregar sua mochila. Assim se perpetua que quem vai à escola é ele, mas quem deve carregar a mochila é a mãe.
Para que carregar sua mochila se, até então, isso é obrigação da mãe? Essa é uma das melhores maneiras de um filho não adquirir responsabilidade pela própria vida. Mas o pior é quando o filho acredita que é obrigação dos pais carregar as "mochilas da vida" e que a ele só cabe viver o prazer. O filho se deforma, transformando-se em "folgado", enquanto os pais se "sufocam".

Assim vai se organizando uma falta de ética em que o respeito a quem o ajuda passa a não existir; e a responsabilidade pelos próprios compromissos, a se diluir. Quem não respeita a própria mãe não tem por que respeitar outras pessoas: pai, professores, autoridades sociais ou qualquer ser vivente, seja mendigo, seja índio... Quem não se responsabiliza pelos próprios atos não tem por que se preocupar com o que faz ou deixa de fazer... Tudo isso pode ocorrer se carregar a mochila do filho for extensão social do que a mãe faz dentro de casa, isto é, se ela carrega também a casa toda...

Carregar a mochila do filho é um erro de amor. Cometido por amor, pode ser até aceitável, mas não se justifica. O maior amor é criá-lo e educá-lo para a vida. E a vida exige qualidade, ética, liberdade e responsabilidade. Ainda bem que nossa psique é plástica, e os comportamentos podem ser mudados a qualquer momento, desde que estejamos realmente mobilizados para isso.

Na primeira oportunidade, essa mãe deveria fazer o esforço sobrematerno, que é maior que o sobre-humano, para não carregar a mochila do filho. Vai ser uma briga interna muito grande contra a sensação de estar sendo má, incompetente e omissa... Mas a mãe tem de saber que o que sempre fez, pensando estar ajudando, na realidade prejudicou o filho e acreditar que pode mudar. Portanto, essa mudança de atitude tem a finalidade de educar saudavelmente o filho, porque só o amor não é suficiente para uma boa educação.

O filho tem de sentir todo o peso de sua mochila. Cabe à mãe oferecer ajuda. Se ele, por birra, já que nunca carregou peso algum, recusar a ajuda, ótimo! A mãe não deve sentir-se inútil. Pelo contrário, deve usufruir o filho, que está começando a assumir a própria responsabilidade, e curtir essa felicidade. A mãe não deve incomodar-se com os olhares indignados de 

outras mães, querendo dizer: "Que mãe desnaturada: deixa o filho soterrado sob a mochila". A mãe precisa devolver os olhares, dizendo: "Quão cegas e submissas elas estão sendo aos próprios filhos, que logo irão chamá-las de escravas e perceber nelas já uma pontinha de inveja por alguém estar conseguindo o que elas sempre desejaram... "É bem provável que já no dia seguinte essa mãe encontre algumas parceiras para sua felicidade.

Chegará uma hora em que o próprio filho, não agüentando mais carregar a mochila, dirá, com aquele ar de súplica que desmonta qualquer coluna vertebral materna: "Manhêêê, me ajuda?". Esta é a hora sagrada que Deus arrumou para a mãe tentar reparar as falhas educativas anteriores. Portanto, não a deve perder de forma alguma. Carregar todo o peso da mochila outra vez, jamais! Mesmo que tenha de lutar com todas as forças contra o "determinismo do instinto materno". É chegada a hora de efetivamente ajudar o filho no que ele precisa. Portanto, nesse exato momento cabe à mãe abrir a mochila, que ele mesmo deve, ou deveria, ter arrumado, e deixá-lo pegar o que consegue carregar. Se ele quiser levar a mochila com menos cadernos, ótimo! Se quiser carregar alguns cadernos, ótimo também! Mesmo que seja pouco, se o filho começar a carregar alguma coisa, já é ótimo. Até agora o que ele aprendeu é que levar a mochila é obrigação da mãe. Portanto, vamos devagar, até ele reaprender que essa obrigação é dele, e a sua mãe só o está ajudando. Se, de pequenino, o filho carrega alguns cadernos, à medida que vai crescendo, pode levar mais cadernos, até chegar o dia em que conseguirá carregar toda a mochila. "Educar é preparar o filho para a alegria da liberdade sem depender de ninguém para "carregar suas mochilas".

Nesse novo processo, o mais importante é que o filho, ao chegar ao portão da escola, sinta na própria pele a ajuda de sua mãe, medida e quantificada pelo peso da mochila que deixou de carregar. Nessa hora, seu coraçãozinho se enche de gratidão, e vem espontaneamente o tão desejado beijo do qual ela tanto correu atrás. É um sentimento de reconhecimento do esforço que sua mãe sempre fez e ao qual ele nunca deu valor. Esse reconhecimento dá ao filho o sinal da existência da mãe. Se existe, a mãe deve ser respeitada.

Assim, o filho, carregando a própria mochila, sendo auxiliado pela mãe nessa pesada tarefa, cria dentro de si respeito pela pessoa que o ajuda. Essa gratidão entra em seu quadro de valores e penetra fundo em seu modo de ser.

Quem tem respeito à própria mãe também respeita seus semelhantes. É dessa maneira que um filho pequeno adquire a ética que vai torná-lo um cidadão na sociedade.


Sobre o Autor - Içami Tiba, nasceu em Tapiraí/São Paulo em 15 de março de 1941,
faleceu em São Paulo em 2 de agosto de 2015,  foi médico psiquiatra, psicodramatista, colunista, escritor de livros sobre Educação familiar e escolar e palestrante. Criou a Teoria da Integração Relacional, que facilita o entendimento e a aplicação da psicologia por pais e educadores.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

A ESTRELA E O ANJO (Nelson Peixoto)

 

Dalva e Ângela, duas presenças amigas que amaram os idosos , numa época anterior às condições atuais do Dr. Thomas.

Entrevistando a Dalva Pereira Vieira, tomei conhecimento e presenciei o porquê de sua escolha para dirigir a Fundação Dr. Thomas , no final dos anos 80, na primeira gestão do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto.

O sucesso de gestão , como diretora de escola , convenceu o prefeito a convida-la ao cargo e a mobilizar forças para a recuperação do abrigo Dr. Thomas. Dalva fez resistência pesada para não aceitar, mas orou o suficiente para pelo menos ir conhecer. 

Conduzida pelo próprio Prefeito, ao entrar no abrigo sentiu o impacto com lágrimas , quando viu as condições deprimentes em que se encontrava. Entendeu tudo como aceno de Deus: "Fica aqui e torne esse lugar humano. Traga sua luz, Dalva, para clarear com sua estrela todo o amanhecer dessas noites tristes por aqui".

A experiência do abandono, da fome e do descuido dos idosos tornaram-se seu primeiro traçado de gestão. 

Começou pela busca da composição de sua equipe de apoio , que sintonizaria com sua compaixão e generosidade.

Em seguida, formou uma dupla ativista com a Ângela Peixoto e foi à procura da sustentabilidade junto a empresas do Distrito Industrial de  Manaus.

A partir de então, a Fundação começou a escrever novas histórias na vida de muitos pobres , que finalizaram seus dias sem família. 

Conseguiu que o Dr. Miguel Ângelo Peixoto, de grande sensibilidade humana, passasse  ser o clínico geral para ouvir os idosos e tratar suas doenças, bem mais do que as dores físicas. Próximo às pegadas do Dr. Harold Thomas, o Dr. Miguel muito contribuiu integrando-se a equipe da presidente Dalva e de Ângela Maria, sua mãe, para o bem estar geral dos internos, cujas paredes deixaram de exalar creolina, que na época se conhecia como desinfetante para limpeza pesada, comumente usada para espaços de animais.

Sim, uma estrela no final dos anos 80 pousou na casa de Idosos Dr. THOMAS , irradiando um brilho com ternura e valorização de cada acolhido. 

A estrela Dalva veio com um anjo  que se chamava Ângela Maria de Castro  Peixoto. Minha irmã , que com suas asas  mansas e generosas , pousou para curar a solidão e o abandono de homens e mulheres, no ocaso de suas vidas. 

Lembro-me dos nomes carinhosos que minha irmã Ângela e Dalva Vieira pronunciavam com carinho. 

Era impactante para mim , quando me falavam de algum dos moradores que seguia para Deus.

O abrigo podia se tornar um encanto de lugar que precisava de gente devotada ao cuidado, à escuta e à paciência. 

Bem poderia ser apenas um lugar de emprego comissionado e uma ocupação funcionalista, ausente de propósitos. 

Não  conheço, nem julgo a história anterior dos administradores, das condições políticas, nem dos sentimentos humanos que habitavam no coração dos antigos gestores e de suas equipes de servidores. Entretanto, o fato real foi que não havia ainda a legislação atual que floriu com os direitos da Terceira Idade, mas que certamente foi ensaio e prática daqueles que, em tempos anteriores, viveram e disseminaram a dignidade e o respeito aos idosos, como sujeitos de direitos e não como descartáveis e obsoletas criaturas, para o apressamento da morte.

O Estatuto do Idoso chegou contra a cultura enamorada pela barbárie por entender a vida apenas quando útil e produtiva materialmente. Não teria assim a consideração de uma vida cuja história foi única e valorosa em si, evitando-se a lógica do descarte sem piedade.

Para nós, civilizados como aprendizes das culturas ancestrais que povoaram esse chão, nunca nos restou dúvidas da sabedoria dos mais velhos. Sabedoria que chegou a nós e onde bebemos na fonte originária, em forma de remédios caseiros, de lendas e mitos reveladores de segredos da floresta e da preservação dos rios, dos lagos e dos animais.

Em contexto de Aldeia "primitiva" não vem mais a ideia do preguiçoso selvagem, do velho inútil e cansado, nem da criança imbecil que só da trabalho para criar.

Dito isto, sonhamos com a atual Fundação Dr. Thomas fidelizando-se na intenção inicial de seu fundador Harold Thomas e nos rastros da Dalva Pereira Vieira e de Ângela Maria de Castro Peixoto que esta crônica homenageia. 

Vem-nos propostas de um Educação intergeracional,  intersetorial e integral com o seguintes princípios e práticas inovadoras:

1. Crianças e idosos em interação, uma vez que o abrigo e a educação infantil estão no mesmo território da Fundação Dr. Thomas;

2. Comunidade, famílias e professores, em participação amistosa com os abrigados e os pais das crianças engajadas na dinâmica da escola;

3. Natureza e os espaços abertos dos caminhos,  brinquedos, árvores e flores e tantos projetos diversos como conteúdo de aprendizagem e sustentação da vida;

4. O potencial recreativo é cultural, artístico e de saúde para todos os envolvidos aprenderem a conviver com tolerância e sem preconceitos; 

5. A unidade das ações promotoras da Paz e da  Fraternidade como fermento da transmissão da sociedade na redução da desigualdade social. 

Enfim, Estrelas e Anjos sejam  sempre chamados a assumir no seu tempo a responsabilidade social.  Construam novas constelações nos céus da Justiça e com a Ternura das asas santas reacendam o fogo da solidariedade. 

(NP-30.04.21).


Sobre o Autor - Nelson Peixoto 
 -  Filósofo, Contador de histórias, Escritor de artigos de sua experiência de vida. Foi conselheiro de Direitos da Infância, Professor universitário, Gestor das Aldeias Infantis SOS Brasil,  por 26 anos, em Manaus e Brasília onde se empenhou com dedicação ao fortalecimentos de laços entre as crianças, os jovens e as famílias em situação de risco e vulnerabilidade social.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

SONHOS EM VIGÍLIA EM ABRIL DE 2021. (Nelson Peixoto)

 

O mês que os olhos ficaram mais abertos, calçamos o desejo de transmitir a paz e viver como testemunhas do Ressuscitado. Caminhamos assim para descobrir novos locais de missão.

Modestamente, situei-me num novo momento de vida, em um espaço fora das Aldeias SOS, o qual era meu local de moradia e também de referência de crianças, adolescentes e famílias, plantas e bichos. Tempo feliz de uma equipe que me apoiou, nunca esquecerei! 

Mês de rumos novos, de prospecção e pequenas descobertas. Tempo de olhar e mapear o território próximo no qual estou mergulhando lentamente. Tempo também de sondar o chão da Vila Amazônia, parte do bairro de Nossa Senhora das Graças e da história de Manaus que marcou a Assistência Social na cidade.

Refiro-me aqui ao Parque do Idoso, da Casa dos Velhinhos Dr. Thomas, dos becos da Vila Amazônia que ficam atrás das casas, lojas e empresas à direita da Av. Djalma Batista, sentido bairro. Mais ainda do igarapé do Mindú, cuja margem é povoada por gente humilde que vive com dificuldades.

Tais locais são contrariamente vividos em comparação ao Vieiralves dos bons restaurantes e dos condomínios mais confortáveis.

A Páscoa, em plena pandemia, aconteceu tal qual  como em Jesus, de morte e de vida, perdas e ganhos de eternidade, fé e esperanças! Quantos amigos foram mais cedo para Deus! Deixando saudades em forma de lágrimas e dores na alma dos amigos que ainda ficaram para lutar pela saúde de todos, pela justiça do Reino que Jesus disse estar no meio de nós. O seu mandato: "Ide e curai" teve eco em nós e nos mobilizou para ajudar.

Abril de lembrança de meu pai que, se estivesse vivo na terra,  estaria completando 117 anos. Memória de fiéis servidores da vida social como o Dr. Thomas, e também o Dr. Heitor Dourado. Este último foi o criador da Fundação de Medicina Tropical de Manaus, e foi também meu professor no começo dos anos 70. Sobre ele, prometo escrever mais tarde.


Mês de flores na chuva abundante, de aconchego para os que moram bem. Tempo de tristeza para os que perdem telhados com a força dos ventos. De águas que apavoram no meio da noite com o transbordamento dos igarapés. 

Mês dos sonhos povoados de Esperança: fim da pandemia, vacinação geral, saúde do corpo e da alma, retorno de crianças para a Escola, mais trabalho, remuneração justa e emprego. Tudo isso sendo alimentado com a vontade de ver o mundo diferente, em tempo de conciliação baseada nos valores que emergem do coração tocado pela presença de Deus amigo, que nos convida a ser parte da humanidade solidária na dor e na alegria. Somos crentes da Vitória da Vida em terra cuidada como habitação de todos. 
Cremos: "Jesus habita entre nós" movendo nossas forças contra tudo que nega a experiência de vida na carne e no espírito. Tudo se faz certeza na Copiosa Redenção, acontecida por Jesus e continuada por cada um de nós. 

(NP - 30.04.21).


Sobre o Autor -  Nelson Peixoto -  Filósofo, Contador de histórias, Escritor de artigos de sua experiência de vida. Foi conselheiro de Direitos da Infância, Professor universitário, Gestor das Aldeias Infantis SOS Brasil,  por 26 anos, em Manaus e Brasília onde se empenhou com dedicação ao fortalecimentos de laços entre as crianças, os jovens e as famílias em situação de risco e vulnerabilidade social.


segunda-feira, 26 de abril de 2021

Onde está a minha esperança? (Rubem Alves)

 

“Se eu souber onde mora a minha esperança, terei razões para viver e razões para morrer. E a vida ficará bela mesmo no meio das lutas".

"Sei muito bem onde minha esperança não está. Não está também nas elites, sejam ricos ou doutores, intelectuais ou empresários. Não está em partido político algum, de direita ou de esquerda. E nem nos poderes legislativo, executivo, ou judiciário. Também não está nas igrejas nem nos movimentos religiosos.

Não coloco minha esperança em coisa alguma que seja definida por categorias sociais. Olho para todas elas com profundo desinteresse. Jamais comprometeria a minha vida com qualquer delas.

Onde está a minha esperança? A minha esperança está numa multidão de indivíduos, independentemente do seu lugar social ou econômico, que vivem possuídos pelo sonho da vida, da beleza e da bondade. A esperança de Camus(*) estava no mesmo lugar que a minha":

“Já se disse que as grandes ideias vêm ao mundo mansamente, como pombas. Talvez, então, se ouvirmos com atenção, escutaremos, em meio ao estrépito de impérios, e nações, um discreto bater de asas, o suave acordar da vida e da esperança. Alguns dirão que a tal esperança jaz numa nação; outros, num homem. Eu creio, ao contrário, que ela é despertada, revivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam as fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado, brilha por um breve momento a verdade, sempre ameaçada de cada e todo homem, sobre a base de seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói para todos”.



Fonte - Extraído do livro “Pimentas” – de Rubem Alves. Página 136 – Editora Planeta, São Paulo, 2014. 

(*)  Albert Camus (1913-1960) foi um escritor, jornalista, romancista, dramaturgo e filósofo argelino, nasceu em Mondovi/Argélia - 7 de novembro. Ficou conhecido por agregar reflexões existencialistas em suas publicações, sendo considerado por muitos como um filósofo. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957 pelo conjunto de sua obra.

Albert Camus falece em Villeblevin, França, no dia 04 de janeiro de 1960, em um acidente de carro, perto de Sens, na França.


quinta-feira, 8 de abril de 2021

O QUE É LETRAMENTO?

                                        

                                                 O QUE É LETRAMENTO?

                                                                           Kate M. Chong

Letramento não é um gancho em que se pendura cada som enunciado,

Não é treinamento repetitivo de uma habilidade,

Nem um martelo quebrando blocos de gramática.

Letramento é diversão é leitura à luz de vela ou lá fora, à luz do sol.

São notícias sobre o presidente.

O tempo, os artistas da TV e mesmo Mônica e Cebolinha nos jornais de domingo.

É uma receita de biscoito, uma lista de compras, recados colados na geladeira,

um bilhete de amor, telegramas de parabéns e cartas de velhos amigos.

É viajar para países desconhecidos, sem deixar sua cama,

É rir e chorar com personagens, heróis e grandes amigos.

É um atlas do mundo, sinais de trânsito, caças ao tesouro, manuais, instruções, guias, e orientações em bulas de remédios, para que você não fique perdido.

Letramento é, sobretudo, um mapa do coração do homem, um mapa de quem você é, e de tudo que você pode ser.


CHONG, Kate M. O que é Letramento - in: Soares Magda, Letramento, um tema em três gêneros. Belo Horizonte, Editora Autêntica, 1998.


Curiosidade sobre a autora - Estudante norte-americana de origem asiática que buscou escrever a sua história pessoal de letramento