terça-feira, 29 de junho de 2021

O tempo (Bráulio Bessa)


O tempo…

 

Sempre vivo e indeciso,

ora corre, ora voa,

consegue curar feridas,

no mesmo instante as magoa.

Ninguém escapa do tempo

invisível feito o vento

que toca qualquer pessoa.

 

O tempo me modelou,

me arrancou do meu ninho,

clareou os meus cabelos,

me bateu, me fez carinho.

O tempo me fez voar,

me ensinou a caminhar,

mas não mostrou o caminho.

 


Por tanto tempo o tempo

fez papel de diretor,

um roteirista confuso,

ora ódio, ora amor,

gritando silencioso,

tão claro e misterioso

feito o mar pro pescador.

 

O tempo me fez poeta,

artista, palco e cenário,

me fez imaginação,

aí, encontrou um páreo,

pois, para o tempo, o artista

sempre foi um adversário.

 

Só o artista segura 

e faz parar o ponteiro

que faz o dia ser noite

e último ser primeiro,

e que tem a ousadia

de determinar o dia

que será o derradeiro.

 

A liberdade da arte

deixa o tempo aprisionado,

faz o relógio da vida

adiantado, atrasado,

e num segundo de paz

toda guerra se desfaz

se o relógio for parado.

 

Já que o tempo é infinito

e o artista o domina,

ser eterno e ser mortal

talvez seja minha sina,

atuar num espetáculo

que nunca fecha a cortina.

 

A única previsão

que é certa sobre o tempo

é que ele vai passar.

Por isso cada momento

deve ser aproveitado,

vivido e depois guardado

na caixa do pensamento.

 

O tempo está sempre vivo

num grande desassossego,

inquieto, inconstante,

é pancada e é chamego,

é solução e problema.

O tempo é só um poema

dizendo: já fui, já chego.


Sobre o autor - Bráulio Bessa Uchoa é um poeta,
cordelista, declamador e palestrante brasileiro.

Nascimento: 1985, em Alto Santo, Ceará.


quarta-feira, 23 de junho de 2021

De quem é a mochila? "Ética e Mochila Escolar (Içami Tiba)"


Já há algum tempo, pesquiso sobre alguns aspectos relacionados à educação nas "entradas e saídas" de algumas instituições escolares. 

E em muitos destes episódios vejo a ausência de pontos importantíssimos e que possivelmente serão  sentidos por essas crianças e/ou jovens em sua relações com "o outro" e até com eles mesmos. 

Alguns deste pontos estão relacionados à autonomia, ao respeito,  a solidariedade, ao coletivo, dentre outros.

Encontro em textos de Içami Tiba a representação de minhas reflexões/ preocupações...



Ética e Mochila Escolar (Içami Tiba)


"É quando o discípulo está pronto
que o mestre aparece." 
É um velho ditado hindu. Muitas vezes o mestre não é uma pessoa, mas um episódio do cotidiano. A Psicologia Educacional está presente nos pequenos atos, que podem passar despercebidos.

Venha comigo observar, à porta de uma escola qualquer, a hora da chegada das crianças com as respectivas mães. Observe: quem carrega a mochila escolar? Na maioria das vezes é a mãe. Essa mãe, por hipersolicitude e num gesto de amor, carrega a mochila do filho para poupá-lo desse esforço. Há mãe exagerada: leva três mochilas nas costas, segura ou carrega o filho menor, enquanto vai cuidando para que os outros filhos não fiquem se matando pelo caminho.

E, quando chegam ao portão da escola, o que acontece?

O filho foge para dentro da escola, e a mãe tem de correr atrás dele para entregar-lhe a mochila e, já com os lábios estendidos, dar-lhe um beijinho de despedida...

Por que um filho, nessa despedida, não beija sua mãe?

Qualquer ser humano, ao se separar de alguém, pelo menos por educação, se despede. Os enamorados beijam-se tão demoradamente que é impossível saber se estão se despedindo, ou "ficando", ou até mesmo chegando... Somente quando não usufruímos a companhia é que "saímos de fininho", isto é, sem nos despedir dela. Portanto, se um filho não beija sua mãe é porque não usufruiu prazerosamente sua companhia. Significa também que o filho não reconheceu a ajuda que a mãe lhe deu.

Ajudar é muito nobre e um gesto de amor, ao qual mãe nenhuma se furta. Mas, se não ficar claro que a mãe o está ajudando, o filho pode entender que é responsabilidade dela carregar sua mochila. Assim se perpetua que quem vai à escola é ele, mas quem deve carregar a mochila é a mãe.
Para que carregar sua mochila se, até então, isso é obrigação da mãe? Essa é uma das melhores maneiras de um filho não adquirir responsabilidade pela própria vida. Mas o pior é quando o filho acredita que é obrigação dos pais carregar as "mochilas da vida" e que a ele só cabe viver o prazer. O filho se deforma, transformando-se em "folgado", enquanto os pais se "sufocam".

Assim vai se organizando uma falta de ética em que o respeito a quem o ajuda passa a não existir; e a responsabilidade pelos próprios compromissos, a se diluir. Quem não respeita a própria mãe não tem por que respeitar outras pessoas: pai, professores, autoridades sociais ou qualquer ser vivente, seja mendigo, seja índio... Quem não se responsabiliza pelos próprios atos não tem por que se preocupar com o que faz ou deixa de fazer... Tudo isso pode ocorrer se carregar a mochila do filho for extensão social do que a mãe faz dentro de casa, isto é, se ela carrega também a casa toda...

Carregar a mochila do filho é um erro de amor. Cometido por amor, pode ser até aceitável, mas não se justifica. O maior amor é criá-lo e educá-lo para a vida. E a vida exige qualidade, ética, liberdade e responsabilidade. Ainda bem que nossa psique é plástica, e os comportamentos podem ser mudados a qualquer momento, desde que estejamos realmente mobilizados para isso.

Na primeira oportunidade, essa mãe deveria fazer o esforço sobrematerno, que é maior que o sobre-humano, para não carregar a mochila do filho. Vai ser uma briga interna muito grande contra a sensação de estar sendo má, incompetente e omissa... Mas a mãe tem de saber que o que sempre fez, pensando estar ajudando, na realidade prejudicou o filho e acreditar que pode mudar. Portanto, essa mudança de atitude tem a finalidade de educar saudavelmente o filho, porque só o amor não é suficiente para uma boa educação.

O filho tem de sentir todo o peso de sua mochila. Cabe à mãe oferecer ajuda. Se ele, por birra, já que nunca carregou peso algum, recusar a ajuda, ótimo! A mãe não deve sentir-se inútil. Pelo contrário, deve usufruir o filho, que está começando a assumir a própria responsabilidade, e curtir essa felicidade. A mãe não deve incomodar-se com os olhares indignados de 

outras mães, querendo dizer: "Que mãe desnaturada: deixa o filho soterrado sob a mochila". A mãe precisa devolver os olhares, dizendo: "Quão cegas e submissas elas estão sendo aos próprios filhos, que logo irão chamá-las de escravas e perceber nelas já uma pontinha de inveja por alguém estar conseguindo o que elas sempre desejaram... "É bem provável que já no dia seguinte essa mãe encontre algumas parceiras para sua felicidade.

Chegará uma hora em que o próprio filho, não agüentando mais carregar a mochila, dirá, com aquele ar de súplica que desmonta qualquer coluna vertebral materna: "Manhêêê, me ajuda?". Esta é a hora sagrada que Deus arrumou para a mãe tentar reparar as falhas educativas anteriores. Portanto, não a deve perder de forma alguma. Carregar todo o peso da mochila outra vez, jamais! Mesmo que tenha de lutar com todas as forças contra o "determinismo do instinto materno". É chegada a hora de efetivamente ajudar o filho no que ele precisa. Portanto, nesse exato momento cabe à mãe abrir a mochila, que ele mesmo deve, ou deveria, ter arrumado, e deixá-lo pegar o que consegue carregar. Se ele quiser levar a mochila com menos cadernos, ótimo! Se quiser carregar alguns cadernos, ótimo também! Mesmo que seja pouco, se o filho começar a carregar alguma coisa, já é ótimo. Até agora o que ele aprendeu é que levar a mochila é obrigação da mãe. Portanto, vamos devagar, até ele reaprender que essa obrigação é dele, e a sua mãe só o está ajudando. Se, de pequenino, o filho carrega alguns cadernos, à medida que vai crescendo, pode levar mais cadernos, até chegar o dia em que conseguirá carregar toda a mochila. "Educar é preparar o filho para a alegria da liberdade sem depender de ninguém para "carregar suas mochilas".

Nesse novo processo, o mais importante é que o filho, ao chegar ao portão da escola, sinta na própria pele a ajuda de sua mãe, medida e quantificada pelo peso da mochila que deixou de carregar. Nessa hora, seu coraçãozinho se enche de gratidão, e vem espontaneamente o tão desejado beijo do qual ela tanto correu atrás. É um sentimento de reconhecimento do esforço que sua mãe sempre fez e ao qual ele nunca deu valor. Esse reconhecimento dá ao filho o sinal da existência da mãe. Se existe, a mãe deve ser respeitada.

Assim, o filho, carregando a própria mochila, sendo auxiliado pela mãe nessa pesada tarefa, cria dentro de si respeito pela pessoa que o ajuda. Essa gratidão entra em seu quadro de valores e penetra fundo em seu modo de ser.

Quem tem respeito à própria mãe também respeita seus semelhantes. É dessa maneira que um filho pequeno adquire a ética que vai torná-lo um cidadão na sociedade.


Sobre o Autor - Içami Tiba, nasceu em Tapiraí/São Paulo em 15 de março de 1941,
faleceu em São Paulo em 2 de agosto de 2015,  foi médico psiquiatra, psicodramatista, colunista, escritor de livros sobre Educação familiar e escolar e palestrante. Criou a Teoria da Integração Relacional, que facilita o entendimento e a aplicação da psicologia por pais e educadores.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

A ESTRELA E O ANJO (Nelson Peixoto)

 

Dalva e Ângela, duas presenças amigas que amaram os idosos , numa época anterior às condições atuais do Dr. Thomas.

Entrevistando a Dalva Pereira Vieira, tomei conhecimento e presenciei o porquê de sua escolha para dirigir a Fundação Dr. Thomas , no final dos anos 80, na primeira gestão do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto.

O sucesso de gestão , como diretora de escola , convenceu o prefeito a convida-la ao cargo e a mobilizar forças para a recuperação do abrigo Dr. Thomas. Dalva fez resistência pesada para não aceitar, mas orou o suficiente para pelo menos ir conhecer. 

Conduzida pelo próprio Prefeito, ao entrar no abrigo sentiu o impacto com lágrimas , quando viu as condições deprimentes em que se encontrava. Entendeu tudo como aceno de Deus: "Fica aqui e torne esse lugar humano. Traga sua luz, Dalva, para clarear com sua estrela todo o amanhecer dessas noites tristes por aqui".

A experiência do abandono, da fome e do descuido dos idosos tornaram-se seu primeiro traçado de gestão. 

Começou pela busca da composição de sua equipe de apoio , que sintonizaria com sua compaixão e generosidade.

Em seguida, formou uma dupla ativista com a Ângela Peixoto e foi à procura da sustentabilidade junto a empresas do Distrito Industrial de  Manaus.

A partir de então, a Fundação começou a escrever novas histórias na vida de muitos pobres , que finalizaram seus dias sem família. 

Conseguiu que o Dr. Miguel Ângelo Peixoto, de grande sensibilidade humana, passasse  ser o clínico geral para ouvir os idosos e tratar suas doenças, bem mais do que as dores físicas. Próximo às pegadas do Dr. Harold Thomas, o Dr. Miguel muito contribuiu integrando-se a equipe da presidente Dalva e de Ângela Maria, sua mãe, para o bem estar geral dos internos, cujas paredes deixaram de exalar creolina, que na época se conhecia como desinfetante para limpeza pesada, comumente usada para espaços de animais.

Sim, uma estrela no final dos anos 80 pousou na casa de Idosos Dr. THOMAS , irradiando um brilho com ternura e valorização de cada acolhido. 

A estrela Dalva veio com um anjo  que se chamava Ângela Maria de Castro  Peixoto. Minha irmã , que com suas asas  mansas e generosas , pousou para curar a solidão e o abandono de homens e mulheres, no ocaso de suas vidas. 

Lembro-me dos nomes carinhosos que minha irmã Ângela e Dalva Vieira pronunciavam com carinho. 

Era impactante para mim , quando me falavam de algum dos moradores que seguia para Deus.

O abrigo podia se tornar um encanto de lugar que precisava de gente devotada ao cuidado, à escuta e à paciência. 

Bem poderia ser apenas um lugar de emprego comissionado e uma ocupação funcionalista, ausente de propósitos. 

Não  conheço, nem julgo a história anterior dos administradores, das condições políticas, nem dos sentimentos humanos que habitavam no coração dos antigos gestores e de suas equipes de servidores. Entretanto, o fato real foi que não havia ainda a legislação atual que floriu com os direitos da Terceira Idade, mas que certamente foi ensaio e prática daqueles que, em tempos anteriores, viveram e disseminaram a dignidade e o respeito aos idosos, como sujeitos de direitos e não como descartáveis e obsoletas criaturas, para o apressamento da morte.

O Estatuto do Idoso chegou contra a cultura enamorada pela barbárie por entender a vida apenas quando útil e produtiva materialmente. Não teria assim a consideração de uma vida cuja história foi única e valorosa em si, evitando-se a lógica do descarte sem piedade.

Para nós, civilizados como aprendizes das culturas ancestrais que povoaram esse chão, nunca nos restou dúvidas da sabedoria dos mais velhos. Sabedoria que chegou a nós e onde bebemos na fonte originária, em forma de remédios caseiros, de lendas e mitos reveladores de segredos da floresta e da preservação dos rios, dos lagos e dos animais.

Em contexto de Aldeia "primitiva" não vem mais a ideia do preguiçoso selvagem, do velho inútil e cansado, nem da criança imbecil que só da trabalho para criar.

Dito isto, sonhamos com a atual Fundação Dr. Thomas fidelizando-se na intenção inicial de seu fundador Harold Thomas e nos rastros da Dalva Pereira Vieira e de Ângela Maria de Castro Peixoto que esta crônica homenageia. 

Vem-nos propostas de um Educação intergeracional,  intersetorial e integral com o seguintes princípios e práticas inovadoras:

1. Crianças e idosos em interação, uma vez que o abrigo e a educação infantil estão no mesmo território da Fundação Dr. Thomas;

2. Comunidade, famílias e professores, em participação amistosa com os abrigados e os pais das crianças engajadas na dinâmica da escola;

3. Natureza e os espaços abertos dos caminhos,  brinquedos, árvores e flores e tantos projetos diversos como conteúdo de aprendizagem e sustentação da vida;

4. O potencial recreativo é cultural, artístico e de saúde para todos os envolvidos aprenderem a conviver com tolerância e sem preconceitos; 

5. A unidade das ações promotoras da Paz e da  Fraternidade como fermento da transmissão da sociedade na redução da desigualdade social. 

Enfim, Estrelas e Anjos sejam  sempre chamados a assumir no seu tempo a responsabilidade social.  Construam novas constelações nos céus da Justiça e com a Ternura das asas santas reacendam o fogo da solidariedade. 

(NP-30.04.21).


Sobre o Autor - Nelson Peixoto 
 -  Filósofo, Contador de histórias, Escritor de artigos de sua experiência de vida. Foi conselheiro de Direitos da Infância, Professor universitário, Gestor das Aldeias Infantis SOS Brasil,  por 26 anos, em Manaus e Brasília onde se empenhou com dedicação ao fortalecimentos de laços entre as crianças, os jovens e as famílias em situação de risco e vulnerabilidade social.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

SONHOS EM VIGÍLIA EM ABRIL DE 2021. (Nelson Peixoto)

 

O mês que os olhos ficaram mais abertos, calçamos o desejo de transmitir a paz e viver como testemunhas do Ressuscitado. Caminhamos assim para descobrir novos locais de missão.

Modestamente, situei-me num novo momento de vida, em um espaço fora das Aldeias SOS, o qual era meu local de moradia e também de referência de crianças, adolescentes e famílias, plantas e bichos. Tempo feliz de uma equipe que me apoiou, nunca esquecerei! 

Mês de rumos novos, de prospecção e pequenas descobertas. Tempo de olhar e mapear o território próximo no qual estou mergulhando lentamente. Tempo também de sondar o chão da Vila Amazônia, parte do bairro de Nossa Senhora das Graças e da história de Manaus que marcou a Assistência Social na cidade.

Refiro-me aqui ao Parque do Idoso, da Casa dos Velhinhos Dr. Thomas, dos becos da Vila Amazônia que ficam atrás das casas, lojas e empresas à direita da Av. Djalma Batista, sentido bairro. Mais ainda do igarapé do Mindú, cuja margem é povoada por gente humilde que vive com dificuldades.

Tais locais são contrariamente vividos em comparação ao Vieiralves dos bons restaurantes e dos condomínios mais confortáveis.

A Páscoa, em plena pandemia, aconteceu tal qual  como em Jesus, de morte e de vida, perdas e ganhos de eternidade, fé e esperanças! Quantos amigos foram mais cedo para Deus! Deixando saudades em forma de lágrimas e dores na alma dos amigos que ainda ficaram para lutar pela saúde de todos, pela justiça do Reino que Jesus disse estar no meio de nós. O seu mandato: "Ide e curai" teve eco em nós e nos mobilizou para ajudar.

Abril de lembrança de meu pai que, se estivesse vivo na terra,  estaria completando 117 anos. Memória de fiéis servidores da vida social como o Dr. Thomas, e também o Dr. Heitor Dourado. Este último foi o criador da Fundação de Medicina Tropical de Manaus, e foi também meu professor no começo dos anos 70. Sobre ele, prometo escrever mais tarde.


Mês de flores na chuva abundante, de aconchego para os que moram bem. Tempo de tristeza para os que perdem telhados com a força dos ventos. De águas que apavoram no meio da noite com o transbordamento dos igarapés. 

Mês dos sonhos povoados de Esperança: fim da pandemia, vacinação geral, saúde do corpo e da alma, retorno de crianças para a Escola, mais trabalho, remuneração justa e emprego. Tudo isso sendo alimentado com a vontade de ver o mundo diferente, em tempo de conciliação baseada nos valores que emergem do coração tocado pela presença de Deus amigo, que nos convida a ser parte da humanidade solidária na dor e na alegria. Somos crentes da Vitória da Vida em terra cuidada como habitação de todos. 
Cremos: "Jesus habita entre nós" movendo nossas forças contra tudo que nega a experiência de vida na carne e no espírito. Tudo se faz certeza na Copiosa Redenção, acontecida por Jesus e continuada por cada um de nós. 

(NP - 30.04.21).


Sobre o Autor -  Nelson Peixoto -  Filósofo, Contador de histórias, Escritor de artigos de sua experiência de vida. Foi conselheiro de Direitos da Infância, Professor universitário, Gestor das Aldeias Infantis SOS Brasil,  por 26 anos, em Manaus e Brasília onde se empenhou com dedicação ao fortalecimentos de laços entre as crianças, os jovens e as famílias em situação de risco e vulnerabilidade social.


segunda-feira, 26 de abril de 2021

Onde está a minha esperança? (Rubem Alves)

 

“Se eu souber onde mora a minha esperança, terei razões para viver e razões para morrer. E a vida ficará bela mesmo no meio das lutas".

"Sei muito bem onde minha esperança não está. Não está também nas elites, sejam ricos ou doutores, intelectuais ou empresários. Não está em partido político algum, de direita ou de esquerda. E nem nos poderes legislativo, executivo, ou judiciário. Também não está nas igrejas nem nos movimentos religiosos.

Não coloco minha esperança em coisa alguma que seja definida por categorias sociais. Olho para todas elas com profundo desinteresse. Jamais comprometeria a minha vida com qualquer delas.

Onde está a minha esperança? A minha esperança está numa multidão de indivíduos, independentemente do seu lugar social ou econômico, que vivem possuídos pelo sonho da vida, da beleza e da bondade. A esperança de Camus(*) estava no mesmo lugar que a minha":

“Já se disse que as grandes ideias vêm ao mundo mansamente, como pombas. Talvez, então, se ouvirmos com atenção, escutaremos, em meio ao estrépito de impérios, e nações, um discreto bater de asas, o suave acordar da vida e da esperança. Alguns dirão que a tal esperança jaz numa nação; outros, num homem. Eu creio, ao contrário, que ela é despertada, revivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam as fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado, brilha por um breve momento a verdade, sempre ameaçada de cada e todo homem, sobre a base de seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói para todos”.



Fonte - Extraído do livro “Pimentas” – de Rubem Alves. Página 136 – Editora Planeta, São Paulo, 2014. 

(*)  Albert Camus (1913-1960) foi um escritor, jornalista, romancista, dramaturgo e filósofo argelino, nasceu em Mondovi/Argélia - 7 de novembro. Ficou conhecido por agregar reflexões existencialistas em suas publicações, sendo considerado por muitos como um filósofo. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957 pelo conjunto de sua obra.

Albert Camus falece em Villeblevin, França, no dia 04 de janeiro de 1960, em um acidente de carro, perto de Sens, na França.


quinta-feira, 8 de abril de 2021

O QUE É LETRAMENTO?

                                        

                                                 O QUE É LETRAMENTO?

                                                                           Kate M. Chong

Letramento não é um gancho em que se pendura cada som enunciado,

Não é treinamento repetitivo de uma habilidade,

Nem um martelo quebrando blocos de gramática.

Letramento é diversão é leitura à luz de vela ou lá fora, à luz do sol.

São notícias sobre o presidente.

O tempo, os artistas da TV e mesmo Mônica e Cebolinha nos jornais de domingo.

É uma receita de biscoito, uma lista de compras, recados colados na geladeira,

um bilhete de amor, telegramas de parabéns e cartas de velhos amigos.

É viajar para países desconhecidos, sem deixar sua cama,

É rir e chorar com personagens, heróis e grandes amigos.

É um atlas do mundo, sinais de trânsito, caças ao tesouro, manuais, instruções, guias, e orientações em bulas de remédios, para que você não fique perdido.

Letramento é, sobretudo, um mapa do coração do homem, um mapa de quem você é, e de tudo que você pode ser.


CHONG, Kate M. O que é Letramento - in: Soares Magda, Letramento, um tema em três gêneros. Belo Horizonte, Editora Autêntica, 1998.


Curiosidade sobre a autora - Estudante norte-americana de origem asiática que buscou escrever a sua história pessoal de letramento




terça-feira, 23 de março de 2021

A ARTE DE OUVIR (Rubem Alves)

 

    De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: “No princípio era o Verbo”. Eu acrescento: “Antes do Verbo era o silêncio”. É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio. Veja este poema de Fernando Pessoa, dirigido a um poeta:

Cessa o teu canto!

Cessa, que, enquanto

O ouvi, ouvia

Uma outra voz

Como que vindo

Nos interstícios

Do brando encanto

Com que o teu canto

Vinha até nós.

Ouvi-te e ouvia-a

No mesmo tempo

E diferentes

Juntas cantar.

E a melodia

Que não havia,

Se agora a lembro,

Faz-me chorar.

    A magia do poema não está nas palavras do poeta. Está nos interstícios silenciosos que há entre as suas palavras. É nesse silêncio que se ouve a melodia que não havia. Aí a magia acontece: a melodia me faz chorar. Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa para por não haver o que dizer, tratamos logo de falar qualquer coisa, para pôr um fim no silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para encher o tempo até que o elevador pare.

    Os orientais entendem melhor do que nós. Se não me engano o nome do filme é Aconteceu em Tóquio. Duas velhinhas se visitavam. Por horas ficavam juntas, sem dizer uma única palavra. Nada diziam por que no seu silêncio morava um mundo. Faziam silêncio não por não terem nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras. A filosofia ocidental é obcecada pela questão do Ser. A filosofia oriental, pela questão do Vazio, do Nada. É no vazio da jarra que se colocam flores.

    O aprendizado do ouvir não se encontra em nossos currículos. A prática educativa tradicional se inicia com a palavra do professor. A menininha, Andrea, voltava do seu primeiro dia na creche. “Como é a professora?”, sua mãe lhe perguntou. Ao que ela respondeu: “Ela grita...” Não bastava que a professora falasse. Ela gritava. Não me lembro de que minha primeira professora, dona Clotilde, tivesse jamais gritado. Mas me lembro dos gritos esganiçados que vinham da sala ao lado. Um único grito enche o espaço de medo. Na escola a violência começa com estupros verbais.

Milan Kundera conta a estória de Tamina, uma garçonete.

Todo mundo gosta de Tamina. Porque ela sabe ouvir o que lhe contam. Mas será que ela ouve mesmo? Não sei... O que conta é que ela não interrompe a fala. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas falam. Uma fala e outra lhe corta a palavra: “é exatamente como eu, eu...”, e começa a falar de si até que a primeira consiga por sua vez cortar: “é exatamente como eu, eu...” Esta frase “é exatamente como eu...” parece ser uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo. É uma revolta brutal contra uma violência brutal: um esforço para libertar o nosso ouvido da escravidão e ocupar à força o ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre os seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro...

    Será que era isso que acontecia na escola tradicional? O professor se apossando do ouvido do aluno (pois não é essa a sua missão?), penetrando-o com a sua fala fálica e estuprando-o com a força da autoridade e a ameaça de castigos, sem se dar conta de que no ouvido silencioso do aluno há uma melodia que se toca. Talvez seja essa a razão por que há tantos cursos de oratória, procurados por políticos e executivos, mas não há cursos de “escutatória”. Todo mundo quer falar. Ninguém quer ouvir.

    Todo mundo quer ser escutado. (Como não há quem os escute, os adultos procuram um psicanalista, profissional pago para escutar.) Toda criança também quer ser escutada. Encontrei, na revista pedagógica italiana Cem Mondialità, a sugestão de que, antes de se iniciarem as atividades de ensino e aprendizagem, os professores se dedicassem por semanas, talvez meses, a simplesmente ouvir as crianças. No silêncio das crianças há um programa de vida: sonhos. É dos sonhos que nasce a inteligência. A inteligência é a ferramenta que o corpo usa para transformar os seus sonhos em realidade. É preciso escutar as crianças para que a sua inteligência desabroche.

    Sugiro então aos professores que, ao lado da sua justa preocupação com o falar claro, tenham também uma justa preocupação com o escutar claro. Amamos não a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A escuta bonita é um bom colo para uma criança se assentar...


Fonte - Downloads/Educacao/dos/sentidos/e/mais...(Rubem Alves).pdf

A ARTE DE OUVIR (Rubem Alves) In: ALVES, Rubem.  Educação dos Sentidos e Mais


Sobre o autor: Pedagogo, poeta, cronista, contador de histórias, ensaísta, teólogo, acadêmico e psicanalista, Rubem Alves, falecido em julho de 2014, deixou como autor um extenso legado literário. Era membro da Academia Brasileira de Letras, professor emérito da Unicamp e cidadão honorário de Campinas. Seu livro Ostra feliz não faz pérola, também publicado pela Planeta, conquistou o 2º lugar na categoria contos e crônicas no Jabuti 2009.

**Grifos feitos por mim.

sexta-feira, 12 de março de 2021

REFLEXÃO - Professores na pandemia: vidas são "obrigadas" a mudar!!!

Muitas vezes a forçada de barra para "esta mudança" são acompanhadas de ameaças diretas...


O textão da Quarentena

(E lá se vão duas semanas) 
                     De Kinha Fonteneles

Vai ser um textão do desabafo sim.
Acho que todo mundo passa por momentos de desespero de vez em quando. E se estamos em isolamento social, acho que esses momentos ficam mais rotineiros.

Essa foto não é de hoje.
Hoje eu estou bem. (Por enquanto)
Mas essa foto tem história.
Ela veio de uma crise de ansiedade depois não conseguir montar uma videoaula. E é sobre essas aulas que eu vim desabafar.


Eu tenho um total de 21 turmas. 
Em tempos comuns eu gasto - mais ou menos - 3 dias para montar aula, prova, exercícios e atividades.
Para conseguir dar aula para 21 turmas, eu fiz 5 anos de curso, mais 5 anos de faculdade mais duas pós.
Uma semana - contando 7 dias - se eu trabalho 3, às vezes 4 ou 5... Me sobra tempo para brincar com os cachorros, dormir, descansar, ler, ir para academia e fazer o que eu bem entender.

(Mas isso era antes da quarentena.)
No dia que essa foto foi batida, eu ouvi a seguinte frase (depois de pedir ajuda com programa de edição de vídeo): "Você tem que se virar sozinha. É tão simples, não é possível que vc não entenda." (A frase pode não ser essa ao pé da letra, mas sem dúvida o contexto é).

Eu não sou Youtuber.
Eu não sou blogueirinha.
Eu não ganho minha renda fazendo entretenimento virtual para outras pessoas.

EU SOU PROFESSORA.

E eu estudei muito pra chegar até aqui... E não fiz nada disso sozinha.
Hoje, para gravar uma aula de 25 minutos, para UMA turma eu demoro - entre fazer a aula, gravar e editar - um dia, um dia e meio. Agora é só fazer as contas... Com 21 turmas, quanto tempo eu perco na frente do computador?

Some isso ao fato de eu não saber, e ter que procurar tutoriais na internet.
Some ainda, estarmos todos em casa. Então é criança correndo pra lá pra cá (muitos professores, têm filhos, vcs sabiam?), gente chamando, o escritório ou ambiente de trabalho - que é dividido com outras pessoas que também estão em home-office. 

Some ainda a pressão de trabalhar mais e ouvir, que talvez, você tenha seu salário reduzido porque os pais dos seus alunos falam que você, professor, está em casa ganhando para fazer videozinho... 

Some a pressão da própria quarentena.
Quanto tempo me sobra apenas para respirar? Porque sim, brincar com os cachorros, ler e descansar... Eu já desisti.
Exigir que a gente aprenda outras coisas do dia para noite é cruel.

E eu entendo que a roda não pode parar de girar, e que os alunos têm que ter aulas... E que a vida continua.
Eu não quero férias.

NÃO SÃO FÉRIAS!!!
Eu quero empatia.
Eu quero que as pessoas entendam, que a gente está correndo contra o tempo pra deixar tudo pronto prós filhos de vocês. Que estamos trabalhando o triplo.

E que estudamos muito para chegarmos a professores. Dar aula não foi do dia pra noite. 

Aluno, olhe pro seu professor com mais carinho.
Pai, mãe... Não diga que o professor do seu filho tá em casa sem fazer nada.

Familiares, entendam que nós vamos precisar de ajuda.
Escolas, valorizem seus profissionais.
A quarentena vai acabar. E qual é a lembrança que você quer levar dela?


Fonte do texto: Facebook - Kinha Fonteneles (29 de março de 2020)